sábado, 20 de janeiro de 2018

Adoção e o preconceito positivo #1

O meu filho está comigo há 3 meses. Incrível como ainda só foi há 3 meses. Às vezes até eu me esqueço que só nos conhecemos há 3 meses. 


Foram muitas e ainda são algumas as congratulações que recebemos. Muitos parabéns e felicidades. É bom. Claro que é bom. Não há pai ou mãe que não goste de mimo.

E pelo meio vai surgindo aqui e ali o dito preconceito positivo ou benevolente. 

Mas como? As pessoas são desagradáveis nos comentários que fazem? Não. 

Até agora diretamente não senti da parte de ninguém um comentário intencionalmente desagradável. Mas percebe-se de forma velada o que está em causa em alguns deles. O tal preconceito positivo. 

Eu acho que as pessoas nem se dão conta quando dizem determinadas coisas. Nunca pensaram nisso a fundo, de tão enraizadas que estão certas ideias ou opiniões. Até porque a maior parte provavelmente nunca conheceu quem tivesse filhos por via da adoção. 

Então que comentários são esses?
Comentários simples, que assim à partida não parecem conter em si nada de pejorativo. 

Do género: "Parabéns pela coragem em adotares uma criança!" 

Esta já ouvi tantas vezes! Coragem? Para ter um filho é necessário coragem? É! Mas por outras razões que não vale a pena estar aqui a esmiuçar. Aqui a coragem é outra. Mas alguém diz “parabéns pela coragem!” a um pai ou uma mãe que acabou de ter um filho por via biológica? 

Sou eu mais corajosa por ter adotado do que alguém que podendo fazê-lo não o faz?

A adoção de uma criança ainda é alimentada por muitas fantasias e mitos que prevalecem sobretudo por desconhecimento, baseadas em histórias isoladas, muitas vezes mal contadas e que passam de boca em boca.

E é assim que se formam representações limitadas e erradas sobre a adoção e, sobretudo, em relação aos filhos adotivos, muitas vezes vistos como crianças revoltadas, problemáticas, incapazes de superar “traumas” e fadadas para serem mal comportadas e quiçá até ingratas com quem as acolheu.

E é aí que surge a ideia que é preciso ter coragem para lidar com uma criança destas. Como se um filho biológico não pudesse vestir à partida nenhum destes adjetivos.

Pois tal qual como num casamento, um filho também é uma carta fechada. Compete a cada um de nós fazer o melhor e dar o melhor de nós, mas sabemos lá nós o que vai resultar dali? Quantos filhos biológicos não desprezam os seus pais, não os maltratam, não são um poço de problemas?

Acima de tudo é preciso ter sorte. E a sorte também somos nós em parte que a fazemos.
Naturalmente que a adoção tem desafios específicos com os quais vou ter de lidar. Mas a maternidade é isto, é lidar com os desafios que cada filho nos coloca.

Para adotar não é preciso ter coragem. Para adotar é preciso acreditar que a história é mais forte que qualquer laço de sangue e que o amor transforma. E eu acredito que o amor transforma e que a história que começou há 3 meses é uma história de sorte para todos nós.

Agora se falarmos de coragem, prefiro falar na coragem dele. Ele sim é um corajoso. Um corajoso pela sua resiliência, um corajoso por acreditar e confiar em nós desde o primeiro dia. Um corajoso por embarcar numa vida totalmente desconhecida, sem verter uma lágrima, mas de sorriso no rosto. É que a nossa vida mudou, mas na vida dele mudou tudo, mais do que uma vez. E quando isso acontece, quando nos viram a vida de pernas para o ar, sim é preciso ter muita, mas mesmo muita coragem para voltar a acreditar de novo.

Outro dos comentários: “Ele é como se fosse filho de sangue”.

Como se fosse? É um filho. Ponto final. Lá está a valorização dos laços de sangue, como se os meus genes e os do pai, a nossa herança genética fosse melhor do que a que lhe corre nas veias. 

Sinceramente espero que a dele seja melhor que a do pai e da mãe. É que do meu lado há um rol de doenças familiares e da parte do pai igual. Por isso nesse aspeto e em termos de seleção natural da espécie, não me parece que estejamos lá muito bem posicionados na escala. Para nós é pouco ou nada importante que ele não tenha parecenças físicas com os pais (embora já várias pessoas sem ligação entre si tenham referido que o acham parecido com o pai, e por acaso eu e o P. também o achamos, mas nós somos suspeitos). 

Agora quero muito, desejo muito, que ele cresça a ser bom, a ser bonito por dentro, a ter bom caráter, a ser leal, verdadeiro, generoso, honesto e educado. E nesse campo eu e o pai estamos a tentar dar o nosso melhor. Só espero que como qualquer mãe ou pai a sorte esteja do nosso lado.

9 comentários:

  1. Fico comovida de ler o teu texto...tens um guerreiro em casa, que vai ser um homem forte e feliz porque te tem e ao teu marido como pais. E vai olhar para trás e recordar-se de como um dia a sua vida se transformou para o tornar no homem que vai ser. Beijinhos para vocês todos.

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    1. Assim espero e desejo, Dona de Casa :)

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  2. Oh! Parabéns, muitos parabéns. Beijinhos

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  3. Muitas felicidades! Parir é dor, apenas, criar é amor. Eu sei do que falo. Beijinhos

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  4. Oh que lindos! A Cereja está muito orgulhosa com a companhia das brincadeiras. Felicidades. Beijinhos

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    1. A Cereja está radiante. Estamos todos :)

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  5. No dia da inseminação que viria a resultar na minha filha disse ao meu marido que caso não resultasse ia inscrever-nos para adoptar.
    Ele quer filhos biológicos, eu não faço questão e gostava de adoptar...

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