sábado, 27 de janeiro de 2018

Adoção e o preconceito positivo #3

Adotei, mas acho inaceitável e até cruel que em algum momento da vida alguém com problemas de infertilidade tenha de ouvir a pergunta:

"Porque não adotas?"

Esta questão está ao mesmo nível de outra que as pessoas “inocentemente" metediças e opinativas da vida alheia gostam de colocar:

"Então e filhos?"

São questões que não se colocam a ninguém. São perguntas que podem ser demasiado constrangedoras, e até dolorosas para quem deseja ter filhos, mas por circunstâncias diversas da vida não os consegue ter. E aqui falamos muitas vezes de casais com anos de lutas e batalhas cheias de dor, frustração e angústia contra a infertilidade.

Por tudo isso e muito mais a adoção não pode ser vista como a solução para problemas de infertilidade. Custa-me que muitas pessoas continuem a olhar para a adoção como a alternativa óbvia para quem não consegue ter um filho biológico. Não é! É injusto pensar assim.

Aliás, durante o período de avaliação, na Sessão B, uma das ações do Plano de Formação para a Adoção, participámos numa sessão coletiva com outros candidatos, e pasmem-se mais de metade eram casais com filhos biológicos, não eram casais inférteis. A amostra de cerca de 8 candidatos (entre casais e uma candidata singular) pode não ser representativa, mas que logo à cabeça contraria muitas das ideias pré-concebidas acerca da adoção, isso contraria.


(imagem retirada da internet)

Adotar deve ser um ato de amor e de entrega absoluta. Não pode ser um curativo, um penso rápido para um coração escangalhado. Não, não pode. Porque primeiro não cura nada, depois rapidez é palavra que não cabe no léxico da adoção.

Encarar a adoção como uma forma de compensar uma impossibilidade fisiológica, projetando num filho adotivo os ideais de um filho biológico é remeter e reduzir a adoção a uma maternidade de segunda e arriscar condenar uma relação parental e familiar a um eterno conflito interno de desajuste e de desarmonia. Um filho não pode simbolizar ou representar um fracasso prévio.

No meu caso pessoal foi a infertilidade que me levou à adoção. Mas podia não ter levado. Como não leva muitos casais inférteis. E eu conheço alguns.

Foi na altura em que passei pelos tratamentos de infertilidade que a ideia de adotar também surgiu na linha do horizonte, como uma hipótese ainda muito pouco refletida, amadurecida. Sei que nesta fase muitas são as pessoas que optam por continuarem a tentar uma gravidez biológica com a ajuda dos tratamentos e concomitantemente iniciam processos de adoção. Uma forma de não perder tempo, de jogar e apostar em várias  frentes a ver no que isto dá. Pelo meio muitos dos que conseguem realizar o sonho de uma gravidez biológica, desistem dos processos de adoção. 

Para nós, e sem qualquer tipo de julgamento em relação a quem o faz, essa nunca foi uma opção válida. Se o fizessemos não seria uma decisão de coração, verdadeiramente genuína e sincera. É preciso estarmos bem resolvidos connosco para que a adoção não seja um engano, um processo injusto connosco e  com quem, depois de tudo, merece o melhor do mundo. Sentiamos que um processo dessa natureza nos pedia muito isso, que entrassemos de corpo e alma, por inteiro. E nessa altura ainda estávamos longe de sermos capazes. 


Depois de 4 anos de travessia no deserto da infertilidade, decidimos encerrar os tratamentos. Não tínhamos chegado ao fim da linha. Não houve aconselhamento médico ou terapêutico no sentido de repensarmos a não continuidade dos tratamentos. Simplesmente sentiamos que tinhamos chegado a um ponto de viragem.
Em agosto de 2012 lançámos as sementes e inscrevemo-nos como candidatos à adoção. Desta vez duas pessoas perfeitamente conscientes e maduras daquilo que queriam, emocionalmente preparadas para aceitarem o desafio de serem pais de coração.

A partir daí a adoção passou a ser a nossa opção. Não a opção B, não uma segunda ou última escolha, mas a nossa primeira escolha, o nosso projeto de amor, esse vencedor, que não aceita prémios de consolação.

6 comentários:

  1. Que real e que importante é este texto. Muitos comentários que os casais inférteis são leviano.
    No meu caso, sempre vi a adopção dessa forma, como um acto de amor. Adoptar não é, nem nunca pode ser como um prémio de consolação. Por isso, por ainda não ter conseguido abdicar de uma gravidez na barriga, ainda não nos inscrevemos como candidatos a adopção, porque realmente acho que não é assim que as coisas se fazem,apesar de respeitar profundamente todas as opções. (partilhei links teus no blog espero que não te importes, sei que com as tuas palavras já ajudaste mais alguém)
    Beijinho e obrigada pelas tuas partilhas

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    1. Dream, não me importo nada que faças partilhas dos posts. A intenção também é muito essa, poder ajudar seja de que maneira for. Um beijinho enorme para ti e que os teus desejos virem realidade ❤

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  2. Olá Luarte se me permites a intromissão gostava de te dar um "conselho", sei que o teu problema é endometriose, chegaste a experimentar homeopatia? não por causa de engravidar, mas por causa das dores, tenho uma amiga que desde que faz homeopáticos a qualidade de vida melhorou muito, diz que nem é possível comparar. bjnhs, Alice

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    1. Olá, Alice :)
      Desde 2008 que as dores da endometriose se foram com as cirurgias, de qualquer forma o teu comentário pode ajudar alguém.
      Obrigada.
      Beijinhos

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  3. Cada relato destes vale ouro :)
    Mesmo sem vos conhecer, tenho a certeza que serão ótimos pais, una pais de coração maravilhosos :)
    Tudo de bom :)

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  4. Oi! Nunca tinha pensado por este lado, a adoção como um prêmio de consolação para casais inférteis.
    Também tentei engravidar e não consegui, e sim, pensei em adotar e me fizeram e fazem muito esta pergunta, "por que não adotas?", mas nunca pensei que seria um curativo. Muito interessante este teu ponto de vista! Me deixaste pensativa... :)
    Mas que bom que decidiram por adotar e estão felizes!
    E felicidade é o que lhes desejo! Incluindo sempre a doce Cereja nos meus votos!

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