quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Naquele dia...

Naquele dia, que prometia ser um dia quente de outono, chegámos cedo ainda antes da hora marcada. Estacionámos o carro e confirmámos a morada. Era ali. Aguardámos a chegada da equipa da Segurança Social que nos acompanhou durante o processo. O coração começava a bater forte. Era hoje.

Finalmente chegaram. E nós lá seguimos em comitiva para o interior onde nos aguardava a restante equipa que ainda não conheciamos. 

Entre outras coisas, contaram-nos que com o nervosismo a tua noite tinha sido mais agitada e tinhas feito xixi na cama. Sorrimos. Eu e o teu pai sorrimos. Também nós se fossemos crianças... Aliás, eu estava ali naquela sala cheia de nervos miudinhos a consumirem-me por dentro e sabe deus o reboliço que me ia na barriga.

Àquela hora o centro de acolhimento estava vazio de crianças. Já tinham ido todas para a escola, exceto tu que aguardavas a nossa chegada.

Eu não imagino o teu coração quando a campainha tocou. Tu já sabias que estávamos para chegar e que assim que a campainha tocasse seríamos nós.

Disseram-nos que embora estivesses muito excitado e muito contente com a ideia de teres pais, a tua reação num primeiro encontro poderia ser muito diferente do expectável. Poderias retrair-te. Recusares aproximar-te de nós. Ficares em silêncio. Chorares. Mil e um cenários… Era melhor estarmos preparados. Enquanto adultos teríamos de ser nós a dar o primeiro passo e a pouco e pouco conquistar a tua confiança.

E chegou a hora. A psicóloga que te acompanhou encaminhou-nos para a sala dos brinquedos. De sorriso franco e meigo pediu-nos que ficássemos à vontade e que aguardássemos um bocadinho que tu já vinhas.

Nessa altura o coração já empurrava o peito para a frente. Já não tinha sítio onde pudesse caber. Naquele momento senti que já estava fora de mim e era maior do que eu. Eu nunca vivi um parto, mas vivi o momento em que te conheci, em que tu finalmente nasceste para mim. Para nós. E não há palavras que possam descrever o que se sente e o que se vive.

Primeiro ouvi-te os passinhos apressados a descer as escadas. E nós ali de pé à tua espera, sem saber muito bem o que fazer e onde pôr as mãos. Porque nunca se sabe. Nunca se sabe nada nestes momentos...

E de repente a porta abre e num segundo tu olhas para nós e corres em direção ao teu pai e abraçá-lo. 

A tua cara e a tua cabeça coladas ao corpo dele à procura do colo, do aconchego. Os teus braços pequeninos a quererem abraçar o pai, naquele abraço tão apertado que não chegava para tanto tamanho.

E nesse instante eu pus-me de cócoras para ficar do teu tamanho. Ainda abraçado ao pai tu voltaste-te para mim. O pai também se pôs de cócoras. Naquele momento éramos todos tão pequeninos perante a grandeza e os mistérios da vida, daquilo que nos estava a acontecer.

Tu olhavas para mim e não dizias nada. Era um olhar brilhante, doce, tão cheio de ternura. Não desviaste o olhar. Olhaste-me nos olhos como que a gravar no teu olhar a minha cara. E eu gravei as tuas linhas, os teus olhos castanhos. Grandes. Num segundo, concentrei-me na tua respiração, fixei-me na tua boca pequenina e tão minuciosamente desenhada e perguntei-te: 

“Sabes quem somos?”

E tu timidamente respondeste baixinho: “É a mamã e o papá!”.

Fiquei sem conseguir engolir. Abracei-te e tu abraçaste-me. E eu beijei-te e ficámos ali os três abraçados num abraço urgente. E assim de repente nasceste e abriu-se em mim a força desse abraço que abraça o mundo. Ali tu, a tua presença, tomou conta do meu coração materno, acabadinho de nascer. Ali eu nasci para ti, tua mãe. E tu para mim, meu tesouro sagrado, meu mistério fecundo.

Pegaste-nos pela mão aos dois e guiaste-nos para a rua naquele teu jeito ingénuo e confiante de quem sabe tudo o que havia a fazer. As crianças sabem tudo. Os adultos não sabem nada. E nós fomos contigo. Tu tão pequeno e tão crescido.

Começaste a fazer bolas de sabão e ensinaste-nos ali a sermos o que tu querias que nós fossemos. E já éramos todos a fazer bolas de sabão redondinhas, leves, transparentes e passageiras... 

(imagem retirada da internet)

E tu rias. Rias tanto. Nunca mais vou esquecer o teu riso e o som do teu riso, enquanto olhavas para nós e corrias atrás das bolinhas, como se corresses atrás de minúsculos arco-íris. E vinhas de novo, sempre de novo abraçar-te a nós. O que é a felicidade? Quem sabe mais sobre a felicidade do que as bolinhas de sabão e a criança que corre atrás delas? Essas bolinhas, pequenas e singelas metáforas da vida.

Nas minhas memórias, guardarei para sempre o teu riso e o teu sorriso dentro de uma bolinha de sabão.


Ali rimos contigo. Rimos contigo de verdade. E tudo ali foi verdade de tão simples e autêntico que foi. Como aquelas bolinhas de sabão cintilantes e molhadas, cheias de risos e doces gargalhadas, cheias de cores a moverem-se e a dançarem ao vento. Ali dentro de cada uma delas o nosso mundo, a explodir de verão em pleno mês de outubro.

17 comentários:

  1. Querida Luarte tive que conter as minhas lágrimas para não desatar a chorar no Trabalho. Que lindas as tuas palavras a tua descrição. Que momento emocionante e bonito muitos
    parabéns ❤️

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    1. Realmente... ler isto no trabalho é dose! Estou aqui com um nó na garganta e a morder o labio... para segurar as lágrimas que teimam!
      Muitos parabéns Luarte!
      Muitas felicidades! ♥

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  2. ohhh impossível não chorar... De alegria...

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  3. Que texto maravilhoso, que momento Lindo!! Estou sem palavras, também sou mãe, é a melhor coisa do mundo!! Desejo-vos muitas felicidades❤ parabéns!!

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  4. Eu tentei mas não se contiveram as lágrimas, sou mãe abençoada de duas raparigas uma de 21 e 7 vivi a emoção de nascer mas também de perder nada é mais forte do que ver nascer não só de dentro de nós mas alguém a quem prometemos Amar para o resto das nossas vidas, assim com o verdadeiro sentido da palavra Bênção é que desejo que o mundo se abra para vós e para o v/ filho com a mesma grandeza de cada palavra que li desejo de coração que cada dia cada bola de sabão represente o Amor que ali nasceu a cumplicidade de um abraço seja o laço de uma vida a trés recheada de momentos abençoados Parabéns pelos Pais que são Parabéns pelo Amor que dão ao v filho abençoados Pais que teem tanto Amor para dar como abençoado o Filho que o recebe beijinhos aos 3 dentro de milhares de bolas de sabão

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  5. Também eu não pude conter as lágrimas, mas ao mesmo tempo um sorriso por sentir essa vossa felicidade. Momento lindo!Tudo de bom.�� Alexandra

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  6. Não consegui conter as lagrimas, mas foram de alegria, e de partilhares esse momento lindo, estou muito feliz por vocês e por esse doce menino. beijinhos no coração e abraços apertados. Tânia Neves Moreira

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  7. ohhh que delicia este amor tão gigante... derreti, arrepiei-me toda e chorei de alegria por vocês, pelo vosso menino! ♥♥
    vou partilhar lá no blog este teu texto como inspiração para o fim-de-semana! bjos doces

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  8. Nem sei o que escrever depois de tanta intensidade nas suas palavras, choro porque sinto que os vossos coraçoes estão do tamanho do mundo de amor, amor infinito, amor de PAIS. Beijinhos e muitas felicidades :)

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  9. Que texto emocionante e tão cheio de amor... Chorei a lê-lo. Desejo tudo do melhor que a vida vos possa reservar, que sejam sempre felizes. Beijinho grande. Joana.

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  10. Que espetáculo... que mágico...
    Muitas felicidades... não consigo dizer mais nada ;)

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  11. Não consigo imaginar um parto mais lindo do que o teu <3

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  12. Tão lindo e bom ! Que Deus vos proteja.

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  13. E choro de coração cheio...muito feliz por esta família que nasceu. ❤️❤️

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Obrigada pela visita e pelo vosso comentário :)