sexta-feira, 11 de maio de 2018

O milagroso champô de Cebola

De há uns anos para cá o meu cabelo enfraqueceu.

Progressivamente os fios tornaram-se mais finos e a queda de cabelo acentuou-se, atingindo sempre o pico na entrada do outono e na passagem da primavera para o verão.

Aí era ver o cabelo a ir embora no ralo da banheira, levantar de manhã e ter a almofada e os ombros do pijama impregnados de dezenas e dezenas de fios de cabelo. 

Claro que o cabelo também tem o seu ciclo de vida e a queda sazonal é um processo natural. Mas quando a queda acentuada se prolonga no tempo vira queda permanente, altera a estrutura e textura dos fios de cabelo e aí deve-se avaliar a situação com um dermatologista e/ou endocrinologista.

Foi o que eu fiz. Consultas, análises ao sangue, exames médicos e os valores e resultados apresentavam-se normais.

Sempre achei que para o enfraquecimento progressivo do meu cabelo viriam a contribuir a minha doença de estimação (endometriose profunda), o stress, três grandes cirurgias abdominais a que fui sujeita nos últimos 10 anos e as doses hormonais muito elevadas que levei quando andava nos ciclos de tratamentos de PMA.

Ao espelho e sob o meu olhar "clínico" que vê à lupa, eu facilmente observava zonas de couro cabeludo a descoberto. O cabelo em algumas zonas era francamente mais ralo e com a cabeça molhada então, ficava com o cabelo agarrado à cabeça e zonas a nú.

E lá ia eu aplicando as loções receitadas, lavando os cabelos com os champôs recomendados, experimentando receitas de mezinhas que supostamente contribuiriam para equilibrar o meu couro cabeludo. Não digo que estas soluções não melhorassem a queda de cabelo ao fim de 1 a 2 meses de aplicações. Melhoravam, nasciam cabelos novos mas não ficava com uma farta cabeleira. Nada de muito espetacular.

Até que entrei num grupo no Facebook sobre queda de cabelos e numa das publicações alguém falava do champô de cebola e dos resultados que estava a conseguir obter.

Da informação que recolhi na altura, a cebola tem imensos minerais cujas propriedades ativam a circulação sanguínea do couro cabeludo diminuindo a queda e acelerando o crescimento do cabelo.  Além disso mantém os fios de cabelo limpos durante mais tempo, dá resistência aos fios e maior brilho.

Porque não experimentar então? Ainda para mais o champô até era barato (não chega a 3 euros uma embalagem de 600 ml).



Comprei o champô de cebola da Babaria no hipermercado Jumbo e comecei a aplicar 2 a 3 vezes por semana. Já levo mais de 4 meses e continuo com a mesma embalagem.

Na altura comprei o condicionador de alho da mesma marca (se era para temperar a cabeça que se fizesse o serviço completo).

O champô uso religiosamente desde então. O condicionador é que vou intercalando com outros.

Mas ao fim de 3 a 4 semanas os resultados começaram a aparecer. 

Neste momento e ao fim destes meses todos, tenho o cabelo que não tinha há anos. Abro carreiros no couro cabeludo e não vejo as zonas ralas que antes persistiam. Tenho a cabeça repleta de cabelos novos já com uns bons centímetros de comprimento. Então à frente na zona da franja e zona posterior (zonas mais críticas) é visível a diferença de tamanho do cabelo novo em relação ao restante. E é muita, muita a quantidade de cabelo novo.

O cabelo ganhou a estrutura que há muito não tinha. Estou tão contente que tinha de partilhar esta minha experiência, pois sei que este mal da queda de cabelo afeta imensa gente.

Só tenho uma coisa a dizer:  santíssimo champô de cebola obrigada por fazeres milagres nesta cabecinha! 

Nota: É possível e há quem faça o seu próprio champô e máscaras de cebola em casa (sobretudo com cebola roxa). Não me aventurei nesses terrenos, nem estou para aí virada. Mas para quem prefere, fica a dica.

Beijinhos e um ótimo fim de semana.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Quadro de incentivos


Para facilitar a vida aqui em casa, e os pais não andarem a repetir milhentas vezes as mesmas coisas até à exaustão, e evitar chatearmo-nos com ele outras tantas, nos últimos dias lembrámo-nos de fazer um quadro de incentivos. 

O meu filho é super querido e considero-o bastante educado, mas como todos os miúdos da idade dele a resistência em fazer as coisas fazem parte desta fase da vida.  

De forma simples e clara, fiz o mapa com as tarefas/regras diárias que é suposto ele fazer e que nos dão mais trabalho ele cumprir. Explicadas e compreendidas as regras o mapa entrou ontem em funcionamento. Se no final da semana forem mais caras felizes que infelizes ele terá recompensa. A recompensa pode ser ir a um lugar, fazer certa atividade, ter um brinquedo novo (embora o propósito não seja de todo fomentar recompensas materiais). Mas tudo depende. O mesmo funciona para as caras infelizes, mas ao contrário. O que significa deixar de ter coisas que gosta ou não ir a determinados sítios, etc. O mapa está no quarto dele num daqueles quadros expositores de cortiça e é suposto ser preenchido ao final do dia por mim ou pelo pai na presença dele, incentivando-o à reflexão e ao entendimento da avaliação atribuída. 

Mapa em folha A4

Ontem correu tudo lindamente. Só carinhas verdes e sorridentes em todos os parâmetros. Previsível para o primeiro dia. Esta manhã com o trânsito um caos, ficámos entalados mais de 1 hora para fazer um percurso que se faz em 10 minutos. A paciência começou a esgotar-se-lhe porque o carro não andava. Eu a explicar-lhe que não podia voar, nem passar por cima dos outros carros. Ele impaciente. Eu já a bufar com a impaciência dele. Até que se lembra de começar uma birra.


- Olha filho se vais começar a fazer birras sem motivo não vais poder levar cara sorridente, como já sabes!

- Achas mãe??? Isto era uma birra de brincadeira (de repente muda todo o semblante e volta a compor-se na cadeira como se nada fosse)

- És fantástico, filho! É que parecia mesmo a sério! Quase que enganavas a tua mãe.

Ficou todo inchado de felicidade. Remédio santo. 

E assim lá seguimos nós parados, paradinhos no trânsito mas felizes e contentes.

Vamos ver quanto tempo isto dura...

quarta-feira, 21 de março de 2018

É um caso sério este bolo de chocolate

Já experimentei este bolo 3 vezes e das 3 em aniversários. Por isso já me acho com legitimidade para afirmar que este é o meu bolo de chocolate de eleição.

Há um outro também muito bom que já tinha colocado aqui. Mas este que vos trago hoje tem ali um "je ne sais quoi" que o torna um bolo espetacular, absolutamente delicioso, sem ser demasiado doce ou enjoativo ao fim da primeira fatia. Porque o problema é esse, dá vontade de comer fatia atrás de fatia. E no último domigo foi vê-las a voar como andorinhas em plena primavera.

Regra geral não compro bolos de aniversário. Tirando uma ou outra exceção, prefiro fazê-los em casa. Um bolo caseiro feito com amor tem outro sabor.

Por isso não imaginam quando me vi a braços com a primeira festa de aniversário do meu filho.

E agora o que é que eu faço? O rapaz diz que gostava de um bolo do Faísca McQueen.

Vi-me quase, quase a encomendar um bolo numa pastelaria e assim resolvia-se a questão do bolo temático.

Mas por outro lado, achei que era tão mais mágico fazer o bolo em casa. As memórias do primeiro bolo de aniversário. Ele acompanhar a preparação do bolo, rapar a tigela. Era outro entusiasmo. Outro sabor a preencher as memórias, mesmo que o bolo não saísse tão bonitinho quanto se gostaria.

A verdade é que a decoração embora muito amadora fez a felicidade do rapaz, que estava super contente com o seu bolo do Faísca. Para a cobertura usei uma embalagem de queijo Mascarpone, adicionei um pacote de natas e bati tudo com açúcar amarelo a gosto. Para a decoração comprei uma embalagem de massa de amêndoa vermelha (à venda em casas especializadas mas também no Jumbo na parte das sobremesas), uma bisnaga de decoração alimentar em vermelho (à venda também na mesma secção), 2 palhinhas de papel, bandeirolas coloridas que retirei de um conjunto palitos de acepipes e um carro que usei da coleção do meu filho, que depois de lavado foi para cima do bolo em cima de um pedaço de folha de gelatina transparente, cortada à medida nem se via em cima do bolo.



O bolo do meu filho foi recheado de caramelo. Fiz o bolo numa forma única. Como cortei o bolo em duas metades ao invés de dividir a massa por duas formas do mesmo tamanho, tive de o deixar cozer mais um bocadinho para que não se desmanchasse todo na altura de o cortar em duas metade iguais. Claro que o recheio compensa depois alguma da humidade do chocolate que se perdeu com mais alguns minutos no forno. 

Já para o meu bolo não usei recheio. Cozeu menos tempo e por isso ficou muito mais húmido. Aquele bolo que se desfaz na boca. De uma próxima vez vou mesmo dividir a massa em duas formas iguais e depois montar com o recheio de caramelo.

Peço desde já as minhas sinceras desculpas por não ter foto de uma das fatias do bolo do meu filho e não ter nenhuma de jeito do meu bolo. Mas se uma pessoa não se atira às fatias na hora de comer o bolo, fica a ver navios que foi o que aconteceu ao meu pai. Mandei duas generosas fatias para casa deles e a minha mãe comeu as duas. Soube o meu pai por mim que eu tinha enviado duas, porque a versão da minha mãe é que eu só tinha enviado uma fatia pequena. E pronto, a minha mãe não se livrou dele a chamar de "Lambona!" :P

Fiz a mesma cobertura de mascarpone e natas para o meu bolo e usei a massa de amêndoas para fazer a restante decoração.

Como não sou supersticiosa e me esqueci de comprar vela, usei uma vela do ano passado (eu sou daquelas que guarda velas). Com uma faca cortei um bocadinho da cera, para descobrir o pavio novo e depois foi cortar a ponta do pavio queimado com uma tesoura. Voilá temos uma vela nova e ninguém dá por nada :)





E agora vamos ao que realmente interessa, à receita :)

Para introdução, e a título de curiosidade, em nenhuma fase da confeção deste bolo é necessário batedeira. Este bolo não se bate. E outra coisa curiosa é que a confeção da massa faz-se em 3 momentos. Momento 1, mistura dos ingredientes secos. Momento 2, mistura dos líquidos. Momento 3, junção dos sólidos com os líquidos

A medida da chávena que usei é de 200 ml

Bolo de Chocolate 

Ingredientes

2 chávenas e 1/2 de farinha de trigo
2 chávenas de açúcar amarelo 
1 chávena de cacau em pó (usei pantagruel)
2 c. de chá de bicarbonto de sódio
2 c. de chá de fermento em pó para bolos
1 c. de chá de sal grosso

1 chávena de buttermilk*
1 chávena de óleo vegetal
4 ovos
2 c. de chá de extrato de baunilha
160 ml de café expresso quente

Preparação

1) Cortar 2 círculos de papel vegetal à medida de duas formas iguais com cerca de 22 cm. Untar as formas com manteiga e farinha e forrar o fundo com o papel;

2) Pré-aquecer o forno a 180º C;

3) Numa tigela misturar bem com um garfo ou uma vara de arames a farinha, o açúcar, o cacau, o bicarbonato de sódio, o fermento e o sal.

4) Noutra tigela misturar o buttermilk, o óleo, os ovos inteiros e a baunilha.

5) Incorporar aos poucos a mistura de líquidos na mistura dos sólidos. Por fim adicionar o café quente e mexer.

6) Dividir a massa pelas duas formas e assar por 35 minutos ou até que no teste do palito este saia limpo.

7) Retirar os bolos do formo e deixar na forma por 30 minutos até esfriarem completamente.

Recheio de Caramelo:

100 gr de açúcar
100 ml de natas
1 c. de sobremesa de sopa de manteiga
uma pitadinha de pedrinhas de sal

1) Levar o açúcar ao lume com 1 colher de sobremesa de água. Deixar que se dissolva até ficar castanho claro.

2) Aquecer as natas.

3) Fora do lume, juntar ao açúcar em caramelo as natas, cuidadosamente e aos poucos, mexendo com uma colher de pau ou vara de arames. Juntar ao creme a manteiga, continuando a mexer. Deixar arrefecer e conservar até à altura de usar.

*Para fazer o buttermilk é juntar a 1 chávena de leite 4 colheres de sopa de sumo de limão e deixar repousar alguns entre 5 a 10 minutos à temperatura ambiente até o leite apresentar o aspeto de leite talhado.

Para quem decidir fazer este bolo numa forma só sem recheio aconselho a cozer durante 45 minutos. Se optarem por usar a forma e dividir o bolo em 2 metades aconselho a que este coza por mais 8 a 10 minutos.

E agora sejam felizes com este bolo de chocolate :)

terça-feira, 20 de março de 2018

Do primeiro dia do Pai

Ontem foi um dia muito especial cá por casa.

Desejo que seja o primeiro de muitos dias do pai. 

Um dia especial para pai,  filho e mãe que viveu como se fosse dela este dia também.

O pai fez questão de marcar presença na escola do filho e receber as surpresas que tinham sido preparadas para ele.

Em casa recebeu muitas outras surpresas que o filho também quis preparar. Coisas simples, destituídas de valor material, mas valiosas no que guardam em si de afeto e amor.

Tentei não participar e intrometer-me muito na elaboração das surpresas cá de casa porque a beleza está no que é genuíno e autêntico.

E é por isso que este dia me comoveu tanto a mim quanto ao pai.

Entre outras surpresas, o nosso filho quis desenhar a família e oferecer ao pai. O pai,  a Cereja, o filho e a mãe. Achei tão cheio de significado. Limitei-me a ajudá-lo nas letrinhas que ele só teve de copiar de uma folha para o desenho.


Depois disso quis fazer o pai em peças de Lego.

E a imaginação do meu filho deixou-me assim de coração cheio quando me chamou para ver a sua construção e ajudar no problema que ele não estava a conseguir resolver. O pequeno boneco de playmobil não cabia dentro da janela que ele colocou no peito do pai. Com alguma ajudinha da mãe, arranjou-se uma pecinha de lego onde se pudesse colocar olhos. Depois da peça escolhida, ele decidiu que queria que o filho estivesse a dormir na "barriga" do pai.


Arrepia-me esta ligação tão umbilicalmente amorosa entre pai e filho que começou ainda antes de existirem um para o outro (ver publicação "Prometidos").

Não é a primeira vez que ele se desenha dentro do pai. Outras vezes dentro da mãe. Muitas vezes dentro dos dois. E a verdade é que o carregámos os dois ao peito, Pai e Mãe. Carregámos o nosso filho 5 anos no coração. E em nenhum o amor pesou mais do que no outro. 

Mas como a mãe também queria fazer uma surpresa ao pai, elaborou poucos dias antes um álbum da semana em que conhecemos o nosso filho até ao dia em que regressámos com ele a casa. É uma compilação de momentos mágicos, únicos, deste nosso amor maior. 

O álbum chegou ontem cá a casa. Mesmo em cima do dia do Pai. Experimentei pela primeira vez a Saal para a criação do álbum. Descarreguei a aplicação no PC e aproveitei o desconto promocional na primeira encomenda. Adorei a qualidade do acabamento do álbum e das fotografias. Excelente. Recomendo. Ficou um álbum livro muito bonito.

O pai adorou e comoveu-se, sobretudo porque desconhecia a existência de algumas fotos que eu tinha, entre elas o momento em que o nosso filho nos conheceu e correu para os braços do pai. Fotos essas tiradas pela psicóloga do Centro de Acolhimento. Fotos dos nossos primeiro passeios, das nossas primeiras gargalhadas, beijos, refeições, brincadeiras, da nossa ida à piscina, ao parque, do dia em que o nosso filho veio dormir connosco pela primeira e única vez à "casinha do hotel" e a meio da noite se mudou para a nossa cama. Enquanto pai e filho dormiam juntos, tirei fotografia. São momentos como estes que fazem deste livro um livro de memórias inesquecíveis, o mais lindo registo das nossas vidas. 



Início do álbum

Fim do álbum

Ontem o dia foi simples, mas carregado de emoções bonitas. Juro que nunca imaginei um dia emocionar-me tanto com o dia do Pai. Mais do que o dia do pai foi o dia deles e eles merecem-se tanto!

segunda-feira, 12 de março de 2018

Tu e a Cereja


Com a tua chegada estávamos muito longe de imaginar o quanto a Cereja viria a ser importante na tua e na nossa vida ao longo destes 5 meses que estás connosco.

Não só porque adoras animais. Não só porque no teu imaginário tu sonhavas com uma família onde existisse um cão. Não só porque adoras a Cereja e é de derreter corações a maneira como a mimas e a tratas; da mesma maneira que lhe fazes traquinices e a chamas tantas e tantas vezes “minha quida mai linda e mavilhósa”. Quando vamos a algum lado tu pensas imediatamente nela. Se não pode ir connosco sentes pena. A vossa relação é extraordinária e é incrível saber o quanto é “mavilhóso” o teu coração e o quanto ele cresce connosco e com ela.


Mas mais importante é a empatia que no imediato criaste assim que soubeste da história de vida da Cereja. Nunca fizemos a associação da história dela com a tua história. Nunca. Mas tu fizeste-la. E a verdade é que tem ajudado tanto.

Sabes que a Cereja foi abandonada. Que a Cereja foi para um canil, um lugar onde os cães estão tristes porque não têm família e querem muito ter uma casa sua e uns donos que cuidem e ofereçam carinho e mimo. Sabes que fomos buscar a Cereja e que a Cereja foi adotada por nós. Sabes que não existem fotos da Cereja cachorrinha porque a Cereja já veio crescida para a nossa casa (tinha sensivelmente 1 ano). E sabes o quanto ela é amada e estimada por todos.

Foi talvez no primeiro mês, num dia de sessão de cinema no sofá, enquanto víamos “A Dama e o Vagabundo”, que tu verbalizaste pela primeira vez essa associação de histórias. Tu estavas no CAT (Centro de Acolhimento Temporário) e os pais também te foram buscar como foram buscar a Cereja. Ambos ganharam uma família. Foi tudo quanto disseste.

Quando vês um cão na rua sem dono a tua preocupação é imediata. “Está abandonado!” e mostras-te triste e preocupado porque vai para o canil.

Há 2 dias, estava eu a conduzir enquanto tu vinhas com a Cereja no banco de trás do carro e perguntaste: “Mãe qual era o nome antigo da Cereja?”. Fiz ali um compasso de espera de segundos para arranjar um nome que não me esquecesse e inventei este:

“Cereja Joaquina Almeida Costinha”.

Tu sabes que na altura em que os pais foram buscar a tua cadelinha já ela se chamava Cereja. Tal como tu já tinhas um primeiro nome. E que desde que passou a viver nesta casa é Cereja Patrícia e restantes apelidos da família. Os mesmos que irás ter quando todo o processo se concluir (nunca mais passam os eternos 6 meses de pré-adoção!).

No início ficavas baralhado quando ias ao médico e te chamavam pelo nome, que já te dissemos irá mudar quando chegarem os novos documentos. Por enquanto as outras pessoas não sabem que tu já não estás no CAT. Mas quando tiveres novos cartões todos saberão o teu novo nome e aí já não existirão mais confusões.

Por agora na tua cabeça tu achas que nasceste no CAT e que estavas lá à espera que os pais te fossem buscar. Que a psicóloga e a assistente social que nos visitam todos os meses em casa são as fadas madrinhas que avisaram a mãe e o pai que já tinham um filho e que esse filho eras tu. E por isso tivemos de viajar para longe para te ir buscar. E tu tiveste de fazer uma looooooonga viagem para chegares a casa (até agora a maior que já fizeste e na tua cabeça é mesmo muito, muito longa como se te tivessemos ido buscar à Conchichina). 

Mas voltando à tua pergunta sobre o anterior nome da Cereja, assim que ouviste a minha resposta não te vi o rosto, mas ouvi-te lá atrás a falares com a Cereja e a dizeres-lhe: “olha Cereja, eu também vou ter um nome novo como tu”, “Todos vão saber que somos da mesma família”. Nessa altura espreitei pelo espelho retrovisor e vi-te a afagares-lhe o pelo enquanto esboçavas um sorriso.

Obrigada Cereja por seres o nosso cão. Obrigada por tudo o que nos dás todos os dias da tua vida.

P. S. Para quem ainda não segue a Cereja na sua página do FB, podem fazê-lo aqui e acompanhar as suas histórias, aventuras e momentos em família :)

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

A chegada

Faz hoje 4 meses que chegaste ao lugar que sempre te esperou.

Chegámos de dia enquanto havia luz natural dentro de casa porque a noite é feita de medos, de sombras, de silêncio e solidão.

Apresentámos-te todos os cantos. Cada uma das divisões e, a grosso modo, as regras de cada uma. Até tu chegares, nunca tinha pensado a fundo nas regras tão intrinsecamente associadas a cada canto, e o quanto elas são importantes para que a casa funcione na cadência perfeita da vida de cada família.

É que ninguém nasce ensinado a viver numa casa e quando já temos alguns palmos de altura e muitos centímetros de pensar, isto tem muito que se lhe diga.

Nesse mesmo dia fui buscar a Cereja que tinha passado a semana na casa dos avós. Tu estavas cheio de curiosidade de conhecer ao vivo a Cereja. Já tinhas perguntado por ela no Centro de Acolhimento. “Porque é que a Cereja não veio?”, questionaste tu. Só a conhecias por fotografia do Álbum de Família. 

Tu adoras cães. Adoras animais no geral. Isso facilitou como complicou. Deu para os dois lados. A relação nos primeiros dias não foi fácil de gerir. A Cereja sentiu imensos ciúmes. Não tolerava saltos, correrias, barulhos mais estridentes. Estava habituada a pacatez de uma casa que terminou no dia em que chegaste. 

Desconfiada, ladrava-te, corria atrás de ti para te agarrar. Não foi fácil. Tu eras um intruso que alteraste a dinâmica da vida de toda a gente. Rapidamente percebeu que já não era o centro das atenções. Sentia-se desconfortável, stressada, insegura na tua presença. Estava sempre alerta. Protetora dos donos. Bem vistas as coisas, não houve tempo para uma preparação prévia da tua chegada. Ela percebeu que de repente uma divisão de arrumos ficou vazia e num estalar de dedos se transformou num quarto. Percebeu a nossa azáfama, a nossa ansiedade, mas pouco mais...

Mesmo nesses momentos, tu nunca ganhaste medo. O que não ajudou nadinha. É que se percebesses o perigo, a insegurança, conseguirias ser mais prudente, cauteloso. Mas não! És sempre o mesmo. Isso preocupou-nos muito nos primeiros dias. Como é que íamos resolver esta questão?

Foi difícil, e em certos momentos ainda é, ensinar-te que tens de saber respeitar o espaço da Cereja. Que há regras que importa não esquecer e que se não forem aplicadas ela pode reagir na defensiva e ser perigoso.

Com paciência, com firmeza e assertividade, conseguiu-se que a Cereja percebesse que tu não eras um perigo e que o lugar dela nunca esteve ameaçado.

Hoje são os melhores amigos das brincadeiras. A amizade, o amor que têm um pelo outro é simplesmente incrível. De encher o coração.

Também se chateiam. Ela contigo. Tu com ela. Mas adoram-se e já não vivem um sem o outro. 

Quando a mãe ralha porque tu fazes ouvidos moucos ou fizeste das tuas ou não fizeste o que era suposto, ela mete o bedelho e ralha contigo também. Mas também te protege. Cobre-te de beijos, mima-te. E quando tu fazes das tuas, desculpas-te que foi a Cereja. E quando apareces com um arranhão novo que sabemos que foi ela, tu escondes o delito e dizes que foi outra coisa qualquer. A vossa cumplicidade é enternecedora.

Sim, o início da vossa relação não foi cor-de-rosa, mas hoje é azul da cor do céu com um sol de primavera bem ao centro a fazer crescer o vosso amor-perfeito.


Dos livros... alguns livros de histórias esperavam por ti na tua mesa de cabeceira. Histórias para te ajudar a dormir quando fosses para a cama e a mãe ou o pai te embalassem no ritmo das palavras que fazem sonhar. Durante muito tempo nenhuma destas história foi suficientemente cativante, interessante, sugestiva. E os livros continuaram ali, por ler. A única história que pedias era a tua. A tua história. E tu ias buscar o teu álbum e pedias que te contassem a tua história antes de adormecer. Sempre da mesma maneira, sem mudar uma vírgula, porque tu estavas ali a ouvi-la muito atento. E a qualquer infração, qualquer desvio, tu feito polícia, metias a tua história na ordem. Não, não. Não é assim! Conta lá outra vez! Foi assim, noite após noite. Era a tua história que tu querias ouvir. Essa sim, a mais cativante, a mais interessante e verdadeira.

O teu álbum, o teu tesouro, como tu o chamas, está guardado numa das gavetas da mesa de cabeceira. Tem uma gaveta só para ele. Vive ali sozinho, porque nada é suficientemente valioso para lhe fazer companhia. 

Durante os dois primeiros meses recusavas-te a falar do Centro de Acolhimento.

Tocávamos no assunto e tu rapidamente partias para outro. Deixaste de te lembrar dos nomes dos teus amigos, das pessoas que cuidaram de ti. Como se fizesses questão de esquecer ou não lembrar. Medo de doer? Medo de nos fazer doer se nos dissesses que tinhas saudades? Dificilmente saberemos o que te ia na cabeça e no teu coração de menino. Só não querias falar. 

Um dia a mãe disse-te que sentir saudades é bom e que podemos enviar abraços e receber abraços quando precisamos muito. E isso era possível com o botão do amor. Um coração desenhado no topo da mão, junto ao dedo polegar. Tu ouviste-me muito atento e não disseste nada. Algum tempo depois, vieste ter comigo e pediste baixinho: “Mãe, podes desenhar aqui um coração?” e apontaste para o lugar certo na tua mão. Tu começaste a perceber que não havia mal, nem ninguém ficaria triste, desapontado, que tu sentisses saudades de um lugar que foi teu, que é parte da tua história. 

E a pouco e pouco tu foste tranquilizando e percebendo que aconteça o que acontecer, mesmo nos momentos difíceis, no meio de uma teimosa e intempestiva birra tua, esta é a tua casa, este é o teu lugar para sempre e o amor por ti é inquestionável. A tua vida passou a morar aqui, no nosso coração. Para sempre.

E agora já és tu que espontaneamente falas dos teus amigos de lá, de coisas que lá fazias, de coisas que te lembras. Sem medos, sem receios e de coração aberto.

As coisas foram mudando, tu foste mudando...

Em 4 meses são tão grandes as mudanças que já aconteceram em ti que o sentimento é que já passaram anos. Comparo as tuas primeiras fotos e as atuais e vejo, vê-se, como até as tuas feições mudaram. 

E o que tu já falas? É impressionante o salto que tu já deste na forma como te expressas. Sim, existir um atraso na comunicação oral é um problema muito comum em meninos institucionalizados, tantas vezes vítimas da privação de estímulos fundamentais para o seu desenvolvimento integral. Os teus progressos são incríveis. A tua capacidade de autocorreção é admirável. A tua inteligência e perspicácia deixam-me diariamente boquiaberta. Passaste a ter um dicionário. Uma estratégia lúdica que arranjei para guardar as tuas palavras. Tu já pedes para eu escrever as tuas expressões e ao lado a forma correta. Até já te ris de ti próprio. Muitas delas já dizes bem. Outras continuam ainda a ser difíceis. Mas devagarinho se vai ao longe. E a brincar vamos tratando de coisas sérias. É tão fascinante ver-te crescer. Sinto o maior orgulho em ti, o maior orgulho em nós. Saber que pude mudar o curso da tua vida. Que podes ser muito mais. Que posso dar-te asas para voares todos os voos que a tua liberdade conseguir. 

Estes meses têm sido muito intensos, emocionalmente intensos. Repletos de coisas novas, de muitas aprendizagens, imensas alegrias, alguns medos, inseguranças, mas sobretudo de muito amor. A chave é mesmo o amor. O nosso amor. É ele o farol nas nossas vidas. Aquele que nos ilumina o caminho. A travessia. É o amor o responsável pelo que nos aconteceu. A ti e a nós. Foi ele que nos levou ao coração uns dos outros. E quando isto acontece, não há lugar para desencontros. 

Mesmo naqueles momentos em que erro uma e outra vez porque sou humana e tropeço. Tropeço em mim, quando tento dar o melhor mim e não sei como faço. E vou aprendendo à medida que vou desfazendo os nós e começo a fazer laços. Porque desde que chegaste que o meu coração mudou nas voltas que o mundo deu para te encontrar. Passaste a morar lá dentro, nesse lugar que cresce pra dentro e que aperta sempre que vais cair e eu estou ao teu lado para te segurar.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A semana

O dia em que nos conhecemos foi brutalmente intenso em emoções. 

Despedimo-nos de ti a meio da tarde e regressámos à nossa casinha do hotel, como tu dias depois virias a chamar carinhosamente ao lugar onde estávamos hospedados.

Chegámos esgotados. Felizes, mas esgotados. Parecia que de repente toda a nossa energia anímica tinha-se finado, como estrelas engolidas por um buraco negro.

Não houve lugar para conversas, para pensamentos avulsos, opinões, o que fosse… Não havia forças. Ficámos calados. Precisávamos desse silêncio. Do descanso, do repouso das palavras. Não havia espaço para existirem. Seriam puro ruído depois de tudo e do tanto que nos tinha acontecido.

Sei que chegámos ao quarto e nos atirámos para cima da cama, vestidos, de corpo partido e ali extenuados o teu pai adormeceu no mesmo segundo. Eu ainda resisti uns minutos de olhos postos no teto a flutuar. Sem pensar em nada. De cabeça vazia e de coração cheio. Acabei também por adormecer vencida pelo cansaço.

Todos os dias daquela semana foram para ti. Para nós. Para os três. E foram tão intensos.

Quando de manhã cedo chegávamos ao centro de acolhimento, poucos minutos depois dos meninos terem ido para a escola, e tocávamos à campainha para te ir buscar, nós do lado de fora já sentíamos a tua euforia. Tu, lá dentro, a correr em direção à porta e a gritar de forma entusiasta: "É o papá e a mamã!" Vinhas sempre cheio de presa. Havia tanto para fazer, tanto para viver. Estavas tão feliz e nós tão felizes contigo.

Esses dias estão guardados nas memórias mais doces e ternurentas que tenho de tudo quanto já vivi até aqui. São inesquecíveis. São únicos. São dias nossos que já ninguém nos tira.

Arrepio-me quando a minha memória volta lá, aos lugares, às coincidências, como a música "Into my Arms" que durante dias tocou em modo repeat na minha cabeça. E voltou a tocar ali, no parque infantil, vinda do café que ficava mesmo em frente, enquanto tu no alto do escorrega gritavas:

“Mamã eu vou cair. Tu apanhas-me, está bem?”


Arrepio-me quando no dia da partida, tu deste um beijo rápido de despedida às funcionárias e às responsáveis do centro de acolhimento. Não te despediste dos teus amigos. Iria ser doloroso. Foi melhor assim. Sobretudo para quem fica. Tu também durante muito tempo ficaste e esperaste até este dia. 

Os adultos que conhecias, aqueles em que confiaste e que cuidaram de ti, não conseguiam disfarçar o misto de emoções naquele momento. Foi difícil. Todo o carinho que sentiam por ti, estava ali, estampado nos olhos humedecidos e nas vozes trémulas que te desejavam o melhor. Porque o melhor estava guardado para ti. Foi difícil não me emocionar também. Afinal de contas aquele foi o teu lugar, a paragem onde te abrigaste das tempestades da vida, enquanto esperavas por nós.

Mas tu sempre de sorriso nos lábios, como só os audazes sabem ser nos momentos difíceis, acenaste um último adeus, pegaste no teu saco e na tua pequena mochila, e no teu jeito despachado e muito expedito foste andando em passos largos à nossa frente. Sem vacilar entraste no carro para a última viagem sem retorno. Nunca em momento algum olhaste para trás. O teu pai ao volante e eu ali ao lado a conter as lágrimas. E tu, no banco de trás, a única coisa que nos disseste antes de partirmos:


“E agora, já podemos ir para casa?”

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Naquele dia...

Naquele dia, que prometia ser um dia quente de outono, chegámos cedo ainda antes da hora marcada. Estacionámos o carro e confirmámos a morada. Era ali. Aguardámos a chegada da equipa da Segurança Social que nos acompanhou durante o processo. O coração começava a bater forte. Era hoje.

Finalmente chegaram. E nós lá seguimos em comitiva para o interior onde nos aguardava a restante equipa que ainda não conheciamos. 

Entre outras coisas, contaram-nos que com o nervosismo a tua noite tinha sido mais agitada e tinhas feito xixi na cama. Sorrimos. Eu e o teu pai sorrimos. Também nós se fossemos crianças... Aliás, eu estava ali naquela sala cheia de nervos miudinhos a consumirem-me por dentro e sabe deus o reboliço que me ia na barriga.

Àquela hora o centro de acolhimento estava vazio de crianças. Já tinham ido todas para a escola, exceto tu que aguardavas a nossa chegada.

Eu não imagino o teu coração quando a campainha tocou. Tu já sabias que estávamos para chegar e que assim que a campainha tocasse seríamos nós.

Disseram-nos que embora estivesses muito excitado e muito contente com a ideia de teres pais, a tua reação num primeiro encontro poderia ser muito diferente do expectável. Poderias retrair-te. Recusares aproximar-te de nós. Ficares em silêncio. Chorares. Mil e um cenários… Era melhor estarmos preparados. Enquanto adultos teríamos de ser nós a dar o primeiro passo e a pouco e pouco conquistar a tua confiança.

E chegou a hora. A psicóloga que te acompanhou encaminhou-nos para a sala dos brinquedos. De sorriso franco e meigo pediu-nos que ficássemos à vontade e que aguardássemos um bocadinho que tu já vinhas.

Nessa altura o coração já empurrava o peito para a frente. Já não tinha sítio onde pudesse caber. Naquele momento senti que já estava fora de mim e era maior do que eu. Eu nunca vivi um parto, mas vivi o momento em que te conheci, em que tu finalmente nasceste para mim. Para nós. E não há palavras que possam descrever o que se sente e o que se vive.

Primeiro ouvi-te os passinhos apressados a descer as escadas. E nós ali de pé à tua espera, sem saber muito bem o que fazer e onde pôr as mãos. Porque nunca se sabe. Nunca se sabe nada nestes momentos...

E de repente a porta abre e num segundo tu olhas para nós e corres em direção ao teu pai e abraçá-lo. 

A tua cara e a tua cabeça coladas ao corpo dele à procura do colo, do aconchego. Os teus braços pequeninos a quererem abraçar o pai, naquele abraço tão apertado que não chegava para tanto tamanho.

E nesse instante eu pus-me de cócoras para ficar do teu tamanho. Ainda abraçado ao pai tu voltaste-te para mim. O pai também se pôs de cócoras. Naquele momento éramos todos tão pequeninos perante a grandeza e os mistérios da vida, daquilo que nos estava a acontecer.

Tu olhavas para mim e não dizias nada. Era um olhar brilhante, doce, tão cheio de ternura. Não desviaste o olhar. Olhaste-me nos olhos como que a gravar no teu olhar a minha cara. E eu gravei as tuas linhas, os teus olhos castanhos. Grandes. Num segundo, concentrei-me na tua respiração, fixei-me na tua boca pequenina e tão minuciosamente desenhada e perguntei-te: 

“Sabes quem somos?”

E tu timidamente respondeste baixinho: “É a mamã e o papá!”.

Fiquei sem conseguir engolir. Abracei-te e tu abraçaste-me. E eu beijei-te e ficámos ali os três abraçados num abraço urgente. E assim de repente nasceste e abriu-se em mim a força desse abraço que abraça o mundo. Ali tu, a tua presença, tomou conta do meu coração materno, acabadinho de nascer. Ali eu nasci para ti, tua mãe. E tu para mim, meu tesouro sagrado, meu mistério fecundo.

Pegaste-nos pela mão aos dois e guiaste-nos para a rua naquele teu jeito ingénuo e confiante de quem sabe tudo o que havia a fazer. As crianças sabem tudo. Os adultos não sabem nada. E nós fomos contigo. Tu tão pequeno e tão crescido.

Começaste a fazer bolas de sabão e ensinaste-nos ali a sermos o que tu querias que nós fossemos. E já éramos todos a fazer bolas de sabão redondinhas, leves, transparentes e passageiras... 

(imagem retirada da internet)

E tu rias. Rias tanto. Nunca mais vou esquecer o teu riso e o som do teu riso, enquanto olhavas para nós e corrias atrás das bolinhas, como se corresses atrás de minúsculos arco-íris. E vinhas de novo, sempre de novo abraçar-te a nós. O que é a felicidade? Quem sabe mais sobre a felicidade do que as bolinhas de sabão e a criança que corre atrás delas? Essas bolinhas, pequenas e singelas metáforas da vida.

Nas minhas memórias, guardarei para sempre o teu riso e o teu sorriso dentro de uma bolinha de sabão.


Ali rimos contigo. Rimos contigo de verdade. E tudo ali foi verdade de tão simples e autêntico que foi. Como aquelas bolinhas de sabão cintilantes e molhadas, cheias de risos e doces gargalhadas, cheias de cores a moverem-se e a dançarem ao vento. Ali dentro de cada uma delas o nosso mundo, a explodir de verão em pleno mês de outubro.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Adoção e o preconceito positivo #3

Adotei, mas acho inaceitável e até cruel que em algum momento da vida alguém com problemas de infertilidade tenha de ouvir a pergunta:

"Porque não adotas?"

Esta questão está ao mesmo nível de outra que as pessoas “inocentemente" metediças e opinativas da vida alheia gostam de colocar:

"Então e filhos?"

São questões que não se colocam a ninguém. São perguntas que podem ser demasiado constrangedoras, e até dolorosas para quem deseja ter filhos, mas por circunstâncias diversas da vida não os consegue ter. E aqui falamos muitas vezes de casais com anos de lutas e batalhas cheias de dor, frustração e angústia contra a infertilidade.

Por tudo isso e muito mais a adoção não pode ser vista como a solução para problemas de infertilidade. Custa-me que muitas pessoas continuem a olhar para a adoção como a alternativa óbvia para quem não consegue ter um filho biológico. Não é! É injusto pensar assim.

Aliás, durante o período de avaliação, na Sessão B, uma das ações do Plano de Formação para a Adoção, participámos numa sessão coletiva com outros candidatos, e pasmem-se mais de metade eram casais com filhos biológicos, não eram casais inférteis. A amostra de cerca de 8 candidatos (entre casais e uma candidata singular) pode não ser representativa, mas que logo à cabeça contraria muitas das ideias pré-concebidas acerca da adoção, isso contraria.


(imagem retirada da internet)

Adotar deve ser um ato de amor e de entrega absoluta. Não pode ser um curativo, um penso rápido para um coração escangalhado. Não, não pode. Porque primeiro não cura nada, depois rapidez é palavra que não cabe no léxico da adoção.

Encarar a adoção como uma forma de compensar uma impossibilidade fisiológica, projetando num filho adotivo os ideais de um filho biológico é remeter e reduzir a adoção a uma maternidade de segunda e arriscar condenar uma relação parental e familiar a um eterno conflito interno de desajuste e de desarmonia. Um filho não pode simbolizar ou representar um fracasso prévio.

No meu caso pessoal foi a infertilidade que me levou à adoção. Mas podia não ter levado. Como não leva muitos casais inférteis. E eu conheço alguns.

Foi na altura em que passei pelos tratamentos de infertilidade que a ideia de adotar também surgiu na linha do horizonte, como uma hipótese ainda muito pouco refletida, amadurecida. Sei que nesta fase muitas são as pessoas que optam por continuarem a tentar uma gravidez biológica com a ajuda dos tratamentos e concomitantemente iniciam processos de adoção. Uma forma de não perder tempo, de jogar e apostar em várias  frentes a ver no que isto dá. Pelo meio muitos dos que conseguem realizar o sonho de uma gravidez biológica, desistem dos processos de adoção. 

Para nós, e sem qualquer tipo de julgamento em relação a quem o faz, essa nunca foi uma opção válida. Se o fizessemos não seria uma decisão de coração, verdadeiramente genuína e sincera. É preciso estarmos bem resolvidos connosco para que a adoção não seja um engano, um processo injusto connosco e  com quem, depois de tudo, merece o melhor do mundo. Sentiamos que um processo dessa natureza nos pedia muito isso, que entrassemos de corpo e alma, por inteiro. E nessa altura ainda estávamos longe de sermos capazes. 


Depois de 4 anos de travessia no deserto da infertilidade, decidimos encerrar os tratamentos. Não tínhamos chegado ao fim da linha. Não houve aconselhamento médico ou terapêutico no sentido de repensarmos a não continuidade dos tratamentos. Simplesmente sentiamos que tinhamos chegado a um ponto de viragem.
Em agosto de 2012 lançámos as sementes e inscrevemo-nos como candidatos à adoção. Desta vez duas pessoas perfeitamente conscientes e maduras daquilo que queriam, emocionalmente preparadas para aceitarem o desafio de serem pais de coração.

A partir daí a adoção passou a ser a nossa opção. Não a opção B, não uma segunda ou última escolha, mas a nossa primeira escolha, o nosso projeto de amor, esse vencedor, que não aceita prémios de consolação.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Depois do Sim

Depois do nosso sim, o processo desenrolou-se à velocidade da luz. É mesmo muito, muito rápido.

Compreende-se. Não há tempo a perder. Não há porque uma criança continuar muito mais tempo institucionalizada, quando já tem pais.

Uma vez que o nosso príncipe já era crescido, e com algum entendimento sobre o mundo, foi-nos solicitado que criássemos um álbum de apresentação, o chamado "Álbum de Família" a enviar para o nosso filho e a ser trabalhado com a psicóloga antes da nossa chegada. Este Álbum mais não é do que uma prévia apresentação dos pais e da família à criança. E uma vez que é um álbum para uma criança, deve ser simples, conter o essencial e ser pequenino em tamanho por causa da portabilidade.

Capa do Mini Álbum do nosso filho (15 x 15 cm)

Confesso que durante o tempo que estivemos em lista de espera, e embora não tivessemos imposto nenhum limite mínimo de idade, no mais íntimo de mim eu sabia que iria construir este álbum. Eu queria construir este álbum. Sempre achei que um filho meu não viria com menos de 3 anos. Ao contrário da maioria dos pais, nunca foi um desejo meu ter um bebé. Não querendo parecer fria e insensível, eu não sou aquele tipo de pessoas que se derrete com bebés. Mas acho maravilhoso o universo de entendimento, compreensão e perceção de uma criança a partir dos 2,5 anos/3 anos. Eu queria ter um filho e se tivesse que passar pela etapa de ter um bebé, passaria como é óbvio. Mas até nesse aspeto acho que o universo conspirou a meu favor.

A construção e idealização do álbum foi muito emocionante. Nesta fase eu chorava por tudo e por nada. Descobri que afinal aquela conversa das grávidas ficarem mais sensíveis também se aplica nas gravidezes invisíveis. Eu andava com as emoções à flor da pele. É de facto extraordinário aquilo que nos acontece. Há mesmo uma explosão de hormonas do amor a acontecer cá dentro que nos altera o sistema nervoso e o equilíbrio emocional.

Soubemos mais tarde que o nosso filho adorou o álbum. Depois de o receber andava com ele para todo o lado, até com o álbum ele queria dormir. Isso encheu-nos de muita alegria e felicidade. Aquilo que se procura é que haja tipo um namoro à distância. É ele que sonha connosco. Somos nós que sonhavamos com ele. E passa a existir um desejo comum e profundo de nos termos uns aos outros. Nós deste lado já sabíamos que ele desejava muito ter pais. No seu processo havia essa informação. Sempre que ouvia tocar à porta na instituição, a pergunta era invariavelmente a mesma: "São os meus pais?". Saber isto, era saber quase tudo o que era importante saber.

Os dias que antecedem a integração de um filho são dias loucos, de doidos. A par de um álbum, havia um quarto que durante anos se encheu de tralha e virou arrecadação e que tinha de se transformar agora no quarto do nosso filho. Havia roupas para comprar e muitas outras coisas para preparar e organizar. E o tempo fugia, escoava. Se por um lado parecia faltar um eternidade para o nosso encontro. Por outro, meia dúzia de dias para preparar tudo não era nada.


A montagem de fim de semana


Um baú de pinho de 10 euros só precisava de ser montado e pintado 
para virar baú de arrumação para brinquedos

Sem tempo para grandes idealizações o quarto ficou muito simples mas pronto

A cama com o super herói preferido do nosso filho, 
o personagem Faísca McQueen (havia esta indicação no processo)
e o baú dos brinquedos ao fundo 

Enquanto os pais biológicos têm meses para se prepararem e para prepararem a chegada de um filho, os pais adotivos têm dias. De repente uma gravidez invisível que durou anos chega a termo com um telefonema.

É aí que rebentam as águas, como se existisse um dique de emoções a rodear-nos o coração e aquele amor que cresceu e se alimentou de sonhos e expetativas durante anos, deixou de caber no peito.