terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

A chegada

Faz hoje 4 meses que chegaste ao lugar que sempre te esperou.

Chegámos de dia enquanto havia luz natural dentro de casa porque a noite é feita de medos, de sombras, de silêncio e solidão.

Apresentámos-te todos os cantos. Cada uma das divisões e, a grosso modo, as regras de cada uma. Até tu chegares, nunca tinha pensado a fundo nas regras tão intrinsecamente associadas a cada canto, e o quanto elas são importantes para que a casa funcione na cadência perfeita da vida de cada família.

É que ninguém nasce ensinado a viver numa casa e quando já temos alguns palmos de altura e muitos centímetros de pensar, isto tem muito que se lhe diga.

Nesse mesmo dia fui buscar a Cereja que tinha passado a semana na casa dos avós. Tu estavas cheio de curiosidade de conhecer ao vivo a Cereja. Já tinhas perguntado por ela no Centro de Acolhimento. “Porque é que a Cereja não veio?”, questionaste tu. Só a conhecias por fotografia do Álbum de Família. 

Tu adoras cães. Adoras animais no geral. Isso facilitou como complicou. Deu para os dois lados. A relação nos primeiros dias não foi fácil de gerir. A Cereja sentiu imensos ciúmes. Não tolerava saltos, correrias, barulhos mais estridentes. Estava habituada a pacatez de uma casa que terminou no dia em que chegaste. 

Desconfiada, ladrava-te, corria atrás de ti para te agarrar. Não foi fácil. Tu eras um intruso que alteraste a dinâmica da vida de toda a gente. Rapidamente percebeu que já não era o centro das atenções. Sentia-se desconfortável, stressada, insegura na tua presença. Estava sempre alerta. Protetora dos donos. Bem vistas as coisas, não houve tempo para uma preparação prévia da tua chegada. Ela percebeu que de repente uma divisão de arrumos ficou vazia e num estalar de dedos se transformou num quarto. Percebeu a nossa azáfama, a nossa ansiedade, mas pouco mais...

Mesmo nesses momentos, tu nunca ganhaste medo. O que não ajudou nadinha. É que se percebesses o perigo, a insegurança, conseguirias ser mais prudente, cauteloso. Mas não! És sempre o mesmo. Isso preocupou-nos muito nos primeiros dias. Como é que íamos resolver esta questão?

Foi difícil, e em certos momentos ainda é, ensinar-te que tens de saber respeitar o espaço da Cereja. Que há regras que importa não esquecer e que se não forem aplicadas ela pode reagir na defensiva e ser perigoso.

Com paciência, com firmeza e assertividade, conseguiu-se que a Cereja percebesse que tu não eras um perigo e que o lugar dela nunca esteve ameaçado.

Hoje são os melhores amigos das brincadeiras. A amizade, o amor que têm um pelo outro é simplesmente incrível. De encher o coração.

Também se chateiam. Ela contigo. Tu com ela. Mas adoram-se e já não vivem um sem o outro. 

Quando a mãe ralha porque tu fazes ouvidos moucos ou fizeste das tuas ou não fizeste o que era suposto, ela mete o bedelho e ralha contigo também. Mas também te protege. Cobre-te de beijos, mima-te. E quando tu fazes das tuas, desculpas-te que foi a Cereja. E quando apareces com um arranhão novo que sabemos que foi ela, tu escondes o delito e dizes que foi outra coisa qualquer. A vossa cumplicidade é enternecedora.

Sim, o início da vossa relação não foi cor-de-rosa, mas hoje é azul da cor do céu com um sol de primavera bem ao centro a fazer crescer o vosso amor-perfeito.


Dos livros... alguns livros de histórias esperavam por ti na tua mesa de cabeceira. Histórias para te ajudar a dormir quando fosses para a cama e a mãe ou o pai te embalassem no ritmo das palavras que fazem sonhar. Durante muito tempo nenhuma destas história foi suficientemente cativante, interessante, sugestiva. E os livros continuaram ali, por ler. A única história que pedias era a tua. A tua história. E tu ias buscar o teu álbum e pedias que te contassem a tua história antes de adormecer. Sempre da mesma maneira, sem mudar uma vírgula, porque tu estavas ali a ouvi-la muito atento. E a qualquer infração, qualquer desvio, tu feito polícia, metias a tua história na ordem. Não, não. Não é assim! Conta lá outra vez! Foi assim, noite após noite. Era a tua história que tu querias ouvir. Essa sim, a mais cativante, a mais interessante e verdadeira.

O teu álbum, o teu tesouro, como tu o chamas, está guardado numa das gavetas da mesa de cabeceira. Tem uma gaveta só para ele. Vive ali sozinho, porque nada é suficientemente valioso para lhe fazer companhia. 

Durante os dois primeiros meses recusavas-te a falar do Centro de Acolhimento.

Tocávamos no assunto e tu rapidamente partias para outro. Deixaste de te lembrar dos nomes dos teus amigos, das pessoas que cuidaram de ti. Como se fizesses questão de esquecer ou não lembrar. Medo de doer? Medo de nos fazer doer se nos dissesses que tinhas saudades? Dificilmente saberemos o que te ia na cabeça e no teu coração de menino. Só não querias falar. 

Um dia a mãe disse-te que sentir saudades é bom e que podemos enviar abraços e receber abraços quando precisamos muito. E isso era possível com o botão do amor. Um coração desenhado no topo da mão, junto ao dedo polegar. Tu ouviste-me muito atento e não disseste nada. Algum tempo depois, vieste ter comigo e pediste baixinho: “Mãe, podes desenhar aqui um coração?” e apontaste para o lugar certo na tua mão. Tu começaste a perceber que não havia mal, nem ninguém ficaria triste, desapontado, que tu sentisses saudades de um lugar que foi teu, que é parte da tua história. 

E a pouco e pouco tu foste tranquilizando e percebendo que aconteça o que acontecer, mesmo nos momentos difíceis, no meio de uma teimosa e intempestiva birra tua, esta é a tua casa, este é o teu lugar para sempre e o amor por ti é inquestionável. A tua vida passou a morar aqui, no nosso coração. Para sempre.

E agora já és tu que espontaneamente falas dos teus amigos de lá, de coisas que lá fazias, de coisas que te lembras. Sem medos, sem receios e de coração aberto.

As coisas foram mudando, tu foste mudando...

Em 4 meses são tão grandes as mudanças que já aconteceram em ti que o sentimento é que já passaram anos. Comparo as tuas primeiras fotos e as atuais e vejo, vê-se, como até as tuas feições mudaram. 

E o que tu já falas? É impressionante o salto que tu já deste na forma como te expressas. Sim, existir um atraso na comunicação oral é um problema muito comum em meninos institucionalizados, tantas vezes vítimas da privação de estímulos fundamentais para o seu desenvolvimento integral. Os teus progressos são incríveis. A tua capacidade de autocorreção é admirável. A tua inteligência e perspicácia deixam-me diariamente boquiaberta. Passaste a ter um dicionário. Uma estratégia lúdica que arranjei para guardar as tuas palavras. Tu já pedes para eu escrever as tuas expressões e ao lado a forma correta. Até já te ris de ti próprio. Muitas delas já dizes bem. Outras continuam ainda a ser difíceis. Mas devagarinho se vai ao longe. E a brincar vamos tratando de coisas sérias. É tão fascinante ver-te crescer. Sinto o maior orgulho em ti, o maior orgulho em nós. Saber que pude mudar o curso da tua vida. Que podes ser muito mais. Que posso dar-te asas para voares todos os voos que a tua liberdade conseguir. 

Estes meses têm sido muito intensos, emocionalmente intensos. Repletos de coisas novas, de muitas aprendizagens, imensas alegrias, alguns medos, inseguranças, mas sobretudo de muito amor. A chave é mesmo o amor. O nosso amor. É ele o farol nas nossas vidas. Aquele que nos ilumina o caminho. A travessia. É o amor o responsável pelo que nos aconteceu. A ti e a nós. Foi ele que nos levou ao coração uns dos outros. E quando isto acontece, não há lugar para desencontros. 

Mesmo naqueles momentos em que erro uma e outra vez porque sou humana e tropeço. Tropeço em mim, quando tento dar o melhor mim e não sei como faço. E vou aprendendo à medida que vou desfazendo os nós e começo a fazer laços. Porque desde que chegaste que o meu coração mudou nas voltas que o mundo deu para te encontrar. Passaste a morar lá dentro, nesse lugar que cresce pra dentro e que aperta sempre que vais cair e eu estou ao teu lado para te segurar.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A semana

O dia em que nos conhecemos foi brutalmente intenso em emoções. 

Despedimo-nos de ti a meio da tarde e regressámos à nossa casinha do hotel, como tu dias depois virias a chamar carinhosamente ao lugar onde estávamos hospedados.

Chegámos esgotados. Felizes, mas esgotados. Parecia que de repente toda a nossa energia anímica tinha-se finado, como estrelas engolidas por um buraco negro.

Não houve lugar para conversas, para pensamentos avulsos, opinões, o que fosse… Não havia forças. Ficámos calados. Precisávamos desse silêncio. Do descanso, do repouso das palavras. Não havia espaço para existirem. Seriam puro ruído depois de tudo e do tanto que nos tinha acontecido.

Sei que chegámos ao quarto e nos atirámos para cima da cama, vestidos, de corpo partido e ali extenuados o teu pai adormeceu no mesmo segundo. Eu ainda resisti uns minutos de olhos postos no teto a flutuar. Sem pensar em nada. De cabeça vazia e de coração cheio. Acabei também por adormecer vencida pelo cansaço.

Todos os dias daquela semana foram para ti. Para nós. Para os três. E foram tão intensos.

Quando de manhã cedo chegávamos ao centro de acolhimento, poucos minutos depois dos meninos terem ido para a escola, e tocávamos à campainha para te ir buscar, nós do lado de fora já sentíamos a tua euforia. Tu, lá dentro, a correr em direção à porta e a gritar de forma entusiasta: "É o papá e a mamã!" Vinhas sempre cheio de presa. Havia tanto para fazer, tanto para viver. Estavas tão feliz e nós tão felizes contigo.

Esses dias estão guardados nas memórias mais doces e ternurentas que tenho de tudo quanto já vivi até aqui. São inesquecíveis. São únicos. São dias nossos que já ninguém nos tira.

Arrepio-me quando a minha memória volta lá, aos lugares, às coincidências, como a música "Into my Arms" que durante dias tocou em modo repeat na minha cabeça. E voltou a tocar ali, no parque infantil, vinda do café que ficava mesmo em frente, enquanto tu no alto do escorrega gritavas:

“Mamã eu vou cair. Tu apanhas-me, está bem?”


Arrepio-me quando no dia da partida, tu deste um beijo rápido de despedida às funcionárias e às responsáveis do centro de acolhimento. Não te despediste dos teus amigos. Iria ser doloroso. Foi melhor assim. Sobretudo para quem fica. Tu também durante muito tempo ficaste e esperaste até este dia. 

Os adultos que conhecias, aqueles em que confiaste e que cuidaram de ti, não conseguiam disfarçar o misto de emoções naquele momento. Foi difícil. Todo o carinho que sentiam por ti, estava ali, estampado nos olhos humedecidos e nas vozes trémulas que te desejavam o melhor. Porque o melhor estava guardado para ti. Foi difícil não me emocionar também. Afinal de contas aquele foi o teu lugar, a paragem onde te abrigaste das tempestades da vida, enquanto esperavas por nós.

Mas tu sempre de sorriso nos lábios, como só os audazes sabem ser nos momentos difíceis, acenaste um último adeus, pegaste no teu saco e na tua pequena mochila, e no teu jeito despachado e muito expedito foste andando em passos largos à nossa frente. Sem vacilar entraste no carro para a última viagem sem retorno. Nunca em momento algum olhaste para trás. O teu pai ao volante e eu ali ao lado a conter as lágrimas. E tu, no banco de trás, a única coisa que nos disseste antes de partirmos:


“E agora, já podemos ir para casa?”

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Naquele dia...

Naquele dia, que prometia ser um dia quente de outono, chegámos cedo ainda antes da hora marcada. Estacionámos o carro e confirmámos a morada. Era ali. Aguardámos a chegada da equipa da Segurança Social que nos acompanhou durante o processo. O coração começava a bater forte. Era hoje.

Finalmente chegaram. E nós lá seguimos em comitiva para o interior onde nos aguardava a restante equipa que ainda não conheciamos. 

Entre outras coisas, contaram-nos que com o nervosismo a tua noite tinha sido mais agitada e tinhas feito xixi na cama. Sorrimos. Eu e o teu pai sorrimos. Também nós se fossemos crianças... Aliás, eu estava ali naquela sala cheia de nervos miudinhos a consumirem-me por dentro e sabe deus o reboliço que me ia na barriga.

Àquela hora o centro de acolhimento estava vazio de crianças. Já tinham ido todas para a escola, exceto tu que aguardavas a nossa chegada.

Eu não imagino o teu coração quando a campainha tocou. Tu já sabias que estávamos para chegar e que assim que a campainha tocasse seríamos nós.

Disseram-nos que embora estivesses muito excitado e muito contente com a ideia de teres pais, a tua reação num primeiro encontro poderia ser muito diferente do expectável. Poderias retrair-te. Recusares aproximar-te de nós. Ficares em silêncio. Chorares. Mil e um cenários… Era melhor estarmos preparados. Enquanto adultos teríamos de ser nós a dar o primeiro passo e a pouco e pouco conquistar a tua confiança.

E chegou a hora. A psicóloga que te acompanhou encaminhou-nos para a sala dos brinquedos. De sorriso franco e meigo pediu-nos que ficássemos à vontade e que aguardássemos um bocadinho que tu já vinhas.

Nessa altura o coração já empurrava o peito para a frente. Já não tinha sítio onde pudesse caber. Naquele momento senti que já estava fora de mim e era maior do que eu. Eu nunca vivi um parto, mas vivi o momento em que te conheci, em que tu finalmente nasceste para mim. Para nós. E não há palavras que possam descrever o que se sente e o que se vive.

Primeiro ouvi-te os passinhos apressados a descer as escadas. E nós ali de pé à tua espera, sem saber muito bem o que fazer e onde pôr as mãos. Porque nunca se sabe. Nunca se sabe nada nestes momentos...

E de repente a porta abre e num segundo tu olhas para nós e corres em direção ao teu pai e abraçá-lo. 

A tua cara e a tua cabeça coladas ao corpo dele à procura do colo, do aconchego. Os teus braços pequeninos a quererem abraçar o pai, naquele abraço tão apertado que não chegava para tanto tamanho.

E nesse instante eu pus-me de cócoras para ficar do teu tamanho. Ainda abraçado ao pai tu voltaste-te para mim. O pai também se pôs de cócoras. Naquele momento éramos todos tão pequeninos perante a grandeza e os mistérios da vida, daquilo que nos estava a acontecer.

Tu olhavas para mim e não dizias nada. Era um olhar brilhante, doce, tão cheio de ternura. Não desviaste o olhar. Olhaste-me nos olhos como que a gravar no teu olhar a minha cara. E eu gravei as tuas linhas, os teus olhos castanhos. Grandes. Num segundo, concentrei-me na tua respiração, fixei-me na tua boca pequenina e tão minuciosamente desenhada e perguntei-te: 

“Sabes quem somos?”

E tu timidamente respondeste baixinho: “É a mamã e o papá!”.

Fiquei sem conseguir engolir. Abracei-te e tu abraçaste-me. E eu beijei-te e ficámos ali os três abraçados num abraço urgente. E assim de repente nasceste e abriu-se em mim a força desse abraço que abraça o mundo. Ali tu, a tua presença, tomou conta do meu coração materno, acabadinho de nascer. Ali eu nasci para ti, tua mãe. E tu para mim, meu tesouro sagrado, meu mistério fecundo.

Pegaste-nos pela mão aos dois e guiaste-nos para a rua naquele teu jeito ingénuo e confiante de quem sabe tudo o que havia a fazer. As crianças sabem tudo. Os adultos não sabem nada. E nós fomos contigo. Tu tão pequeno e tão crescido.

Começaste a fazer bolas de sabão e ensinaste-nos ali a sermos o que tu querias que nós fossemos. E já éramos todos a fazer bolas de sabão redondinhas, leves, transparentes e passageiras... 

(imagem retirada da internet)

E tu rias. Rias tanto. Nunca mais vou esquecer o teu riso e o som do teu riso, enquanto olhavas para nós e corrias atrás das bolinhas, como se corresses atrás de minúsculos arco-íris. E vinhas de novo, sempre de novo abraçar-te a nós. O que é a felicidade? Quem sabe mais sobre a felicidade do que as bolinhas de sabão e a criança que corre atrás delas? Essas bolinhas, pequenas e singelas metáforas da vida.

Nas minhas memórias, guardarei para sempre o teu riso e o teu sorriso dentro de uma bolinha de sabão.


Ali rimos contigo. Rimos contigo de verdade. E tudo ali foi verdade de tão simples e autêntico que foi. Como aquelas bolinhas de sabão cintilantes e molhadas, cheias de risos e doces gargalhadas, cheias de cores a moverem-se e a dançarem ao vento. Ali dentro de cada uma delas o nosso mundo, a explodir de verão em pleno mês de outubro.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Adoção e o preconceito positivo #3

Adotei, mas acho inaceitável e até cruel que em algum momento da vida alguém com problemas de infertilidade tenha de ouvir a pergunta:

"Porque não adotas?"

Esta questão está ao mesmo nível de outra que as pessoas “inocentemente" metediças e opinativas da vida alheia gostam de colocar:

"Então e filhos?"

São questões que não se colocam a ninguém. São perguntas que podem ser demasiado constrangedoras, e até dolorosas para quem deseja ter filhos, mas por circunstâncias diversas da vida não os consegue ter. E aqui falamos muitas vezes de casais com anos de lutas e batalhas cheias de dor, frustração e angústia contra a infertilidade.

Por tudo isso e muito mais a adoção não pode ser vista como a solução para problemas de infertilidade. Custa-me que muitas pessoas continuem a olhar para a adoção como a alternativa óbvia para quem não consegue ter um filho biológico. Não é! É injusto pensar assim.

Aliás, durante o período de avaliação, na Sessão B, uma das ações do Plano de Formação para a Adoção, participámos numa sessão coletiva com outros candidatos, e pasmem-se mais de metade eram casais com filhos biológicos, não eram casais inférteis. A amostra de cerca de 8 candidatos (entre casais e uma candidata singular) pode não ser representativa, mas que logo à cabeça contraria muitas das ideias pré-concebidas acerca da adoção, isso contraria.


(imagem retirada da internet)

Adotar deve ser um ato de amor e de entrega absoluta. Não pode ser um curativo, um penso rápido para um coração escangalhado. Não, não pode. Porque primeiro não cura nada, depois rapidez é palavra que não cabe no léxico da adoção.

Encarar a adoção como uma forma de compensar uma impossibilidade fisiológica, projetando num filho adotivo os ideais de um filho biológico é remeter e reduzir a adoção a uma maternidade de segunda e arriscar condenar uma relação parental e familiar a um eterno conflito interno de desajuste e de desarmonia. Um filho não pode simbolizar ou representar um fracasso prévio.

No meu caso pessoal foi a infertilidade que me levou à adoção. Mas podia não ter levado. Como não leva muitos casais inférteis. E eu conheço alguns.

Foi na altura em que passei pelos tratamentos de infertilidade que a ideia de adotar também surgiu na linha do horizonte, como uma hipótese ainda muito pouco refletida, amadurecida. Sei que nesta fase muitas são as pessoas que optam por continuarem a tentar uma gravidez biológica com a ajuda dos tratamentos e concomitantemente iniciam processos de adoção. Uma forma de não perder tempo, de jogar e apostar em várias  frentes a ver no que isto dá. Pelo meio muitos dos que conseguem realizar o sonho de uma gravidez biológica, desistem dos processos de adoção. 

Para nós, e sem qualquer tipo de julgamento em relação a quem o faz, essa nunca foi uma opção válida. Se o fizessemos não seria uma decisão de coração, verdadeiramente genuína e sincera. É preciso estarmos bem resolvidos connosco para que a adoção não seja um engano, um processo injusto connosco e  com quem, depois de tudo, merece o melhor do mundo. Sentiamos que um processo dessa natureza nos pedia muito isso, que entrassemos de corpo e alma, por inteiro. E nessa altura ainda estávamos longe de sermos capazes. 


Depois de 4 anos de travessia no deserto da infertilidade, decidimos encerrar os tratamentos. Não tínhamos chegado ao fim da linha. Não houve aconselhamento médico ou terapêutico no sentido de repensarmos a não continuidade dos tratamentos. Simplesmente sentiamos que tinhamos chegado a um ponto de viragem.
Em agosto de 2012 lançámos as sementes e inscrevemo-nos como candidatos à adoção. Desta vez duas pessoas perfeitamente conscientes e maduras daquilo que queriam, emocionalmente preparadas para aceitarem o desafio de serem pais de coração.

A partir daí a adoção passou a ser a nossa opção. Não a opção B, não uma segunda ou última escolha, mas a nossa primeira escolha, o nosso projeto de amor, esse vencedor, que não aceita prémios de consolação.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Depois do Sim

Depois do nosso sim, o processo desenrolou-se à velocidade da luz. É mesmo muito, muito rápido.

Compreende-se. Não há tempo a perder. Não há porque uma criança continuar muito mais tempo institucionalizada, quando já tem pais.

Uma vez que o nosso príncipe já era crescido, e com algum entendimento sobre o mundo, foi-nos solicitado que criássemos um álbum de apresentação, o chamado "Álbum de Família" a enviar para o nosso filho e a ser trabalhado com a psicóloga antes da nossa chegada. Este Álbum mais não é do que uma prévia apresentação dos pais e da família à criança. E uma vez que é um álbum para uma criança, deve ser simples, conter o essencial e ser pequenino em tamanho por causa da portabilidade.

Capa do Mini Álbum do nosso filho (15 x 15 cm)

Confesso que durante o tempo que estivemos em lista de espera, e embora não tivessemos imposto nenhum limite mínimo de idade, no mais íntimo de mim eu sabia que iria construir este álbum. Eu queria construir este álbum. Sempre achei que um filho meu não viria com menos de 3 anos. Ao contrário da maioria dos pais, nunca foi um desejo meu ter um bebé. Não querendo parecer fria e insensível, eu não sou aquele tipo de pessoas que se derrete com bebés. Mas acho maravilhoso o universo de entendimento, compreensão e perceção de uma criança a partir dos 2,5 anos/3 anos. Eu queria ter um filho e se tivesse que passar pela etapa de ter um bebé, passaria como é óbvio. Mas até nesse aspeto acho que o universo conspirou a meu favor.

A construção e idealização do álbum foi muito emocionante. Nesta fase eu chorava por tudo e por nada. Descobri que afinal aquela conversa das grávidas ficarem mais sensíveis também se aplica nas gravidezes invisíveis. Eu andava com as emoções à flor da pele. É de facto extraordinário aquilo que nos acontece. Há mesmo uma explosão de hormonas do amor a acontecer cá dentro que nos altera o sistema nervoso e o equilíbrio emocional.

Soubemos mais tarde que o nosso filho adorou o álbum. Depois de o receber andava com ele para todo o lado, até com o álbum ele queria dormir. Isso encheu-nos de muita alegria e felicidade. Aquilo que se procura é que haja tipo um namoro à distância. É ele que sonha connosco. Somos nós que sonhavamos com ele. E passa a existir um desejo comum e profundo de nos termos uns aos outros. Nós deste lado já sabíamos que ele desejava muito ter pais. No seu processo havia essa informação. Sempre que ouvia tocar à porta na instituição, a pergunta era invariavelmente a mesma: "São os meus pais?". Saber isto, era saber quase tudo o que era importante saber.

Os dias que antecedem a integração de um filho são dias loucos, de doidos. A par de um álbum, havia um quarto que durante anos se encheu de tralha e virou arrecadação e que tinha de se transformar agora no quarto do nosso filho. Havia roupas para comprar e muitas outras coisas para preparar e organizar. E o tempo fugia, escoava. Se por um lado parecia faltar um eternidade para o nosso encontro. Por outro, meia dúzia de dias para preparar tudo não era nada.


A montagem de fim de semana


Um baú de pinho de 10 euros só precisava de ser montado e pintado 
para virar baú de arrumação para brinquedos

Sem tempo para grandes idealizações o quarto ficou muito simples mas pronto

A cama com o super herói preferido do nosso filho, 
o personagem Faísca McQueen (havia esta indicação no processo)
e o baú dos brinquedos ao fundo 

Enquanto os pais biológicos têm meses para se prepararem e para prepararem a chegada de um filho, os pais adotivos têm dias. De repente uma gravidez invisível que durou anos chega a termo com um telefonema.

É aí que rebentam as águas, como se existisse um dique de emoções a rodear-nos o coração e aquele amor que cresceu e se alimentou de sonhos e expetativas durante anos, deixou de caber no peito.

Iogurte líquido sem iogurteira

Há dois dias coloquei uma publicação na página do Facebook a dar conta que estava a fazer iogurte Líquido sem iogurteira.

Esta técnica não é nova. Eu já tinha partilhado no blog este método tão simples e tão acessível a quem queira experiementar e não tenha iogurteira ou que tenha e queira experimentar na mesma.

Eu tenho iogurteira, mas para certos iogurtes não é prática, nomeadamente para iogurtes gregos e líquidos. Isto porque eu preciso de um único recipiente e na minha iogurteira tradicional eu sou obrigada a repartir por 6 pequenos potes.

Para fazer Iogurte Líquido utilizo exatamente o mesmo método que já aqui tinha partilhado para fazer o Grego. A única diferença é que para o líquido reduzo cerca de 2 horas no tempo de fermentação e não faço a coalhada.


Ingredientes:

1 litro de leite meio gordo
2 colheres de chá de iogurte.

Preparação:

1) Levar o leite ao lume e assim que começar a formar bolhas de lado desligue. Verta o leite para dentro de um recipiente de vidro ou cerâmica (evite o plástico e o metal) e deixe arrefecer um pouco.

2) Retire a nata que se vai formando na supérfície do leite e caso não tenha um termómetro de cozinha, faça como eu e vá introduzindo o dedo indicador no leite. Quando conseguir aguentar até 10 segundos o calor, então o leite está à temperatura ideal para se colocar os lactobacilos.

3) Coloque as duas colheres de iogurte de compra ou caseiro dentro do leite e emulsione com uma vara de arames.

4) Tape o recipiente com uma tampa ou com um simples prato. 

6) Pré-aqueça o forno a 180º C durante 1 minuto e desligue. Deixe a luz do forno acessa.

7) Embrulhe o recipiente numa pequena manta bem quentinha e coloque dentro do forno.


Recomendo também a leitura deste outro post aqui porque é das melhores descobertas que fiz na área dos iogurtes.

Eu faço iogurte natural que pode ou não ser adoçado com açúcar amarelo.

Outras vezes adoço e dou sabor com compotas de fruta, sem qualquer adição de açúcar.

Prometo que numa próxima publicação partilharei a receita  de uma dessas compotas. São espetaculares.

Ainda voltando ao iogurte líquido. Terminada a fermentação coloco o iogurte numa garrafa de litro e guardo no frigorífico por cerca de 8 a 10 dias.


Normalmente o que faço, caso pretenda com sabor de fruta é colocar uma colher de compota no fundo de um copo, verto o iogurte mexo com uma colher e bebo.

Também pode ser triturada fruta ou partida em pequeninos pedaços e adicionada ao nosso iogurte.

Dá para inventar ao gosto de cada um.

Para mim todas as opções são preferíveis aos iogurtes líquidos de venda que são super adoçados.

E então naqueles dias em que se quer levar o iogurte connosco na mala? É só colocar uma colher de chá de compota numa garrafinha pequena de vidro (como estas que arranjei) ou de plástico por exemplo, verter o iogurte e fechar. Na hora de consumir é agitar para misturar e beber. 

Beijinhos

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Quando ganhaste um rosto

Não foi no dia da reunião em que nos apresentaram o processo do nosso filho que dissemos que sim. Não foi. 

Ninguém é obrigado a ter ali uma resposta e uma decisão prontas. Há quem possa ter, mas nós decidimos a sós vir para casa falar sobre toda a informação que nos tinha sido facultada.

Precisávamos de organizar o coração, precisávamos de partilhar intimamente e sem espetadores os nossos receios, pôr o coração a falar, porque o que está ali é demasiado importante. Demasiado valioso. É uma história, é uma vida, são todas as fragilidades, dificuldades, tudo o que levou uma criança até ali e tudo o que já se traduziu na sua esfera psíquica, física e emocional.

E esse tempo foi-nos dado, embora a decisão tivesse de ser rápida. Tínhamos o direito de recusar, desde que a nossa justificação para o fazer tivesse sustentação. Faz sentido.

Por isso também não foi nesse dia que lhe conhecemos o rosto. O que também faz sentido. Ninguém escolhe um filho por catálogo.

Não foi preciso esgotar o prazo que nos foi dado. A decisão estava tomada, nós queríamos aquele filho, sem mais hesitações. Por decisão pessoal optámos por guardar quase tudo quanto sabemos acerca do nosso filho só para ele. É a sua história. É a ele que lhe pertence e a mais ninguém. Ele tem esse direito, de ser o primeiro a sabê-la depois dos pais. Por isso, apenas partilhámos com amigos, família o que achámos que deveria ser contado a fim de responder à curiosidade natural que qualquer pessoa tem num processo desta natureza. Informação sim, mas quanto baste. Há informação que não aquece nem arrefece terceiros. 

No dia em que o P. ligou a dar a resposta, voltaram a questionar. Têm mesmo a certeza que querem este menino? Sim, temos. Há quem fale de experiências pouco positivas e pouco profissionais com as equipas de adoção. Nós não temos qualquer razão de queixa. Sempre foram de uma grande retidão para connosco. Nunca ninguém nos tentou impingir nada. Nunca ninguém nos tentou mudar as nossas escolhas. Conselhos, foram vários os que nos deram e em posse dos mesmos alterámos ou não decisões iniciais. A equipa foi e tem sido sempre impecável e disponível para nos ajudar.

No dia em que dissemos que sim recebemos por e-mail 3 fotos do nosso petiz.

Ambos estávamos a trabalhar quando as fotos caíram na caixa do correio.

O P. já me tinha ligado anteriormente a dizer que já tinha contactado a equipa a informar da nossa decisão e que no fim do telefonema lhe tinham dito: "P. vamos já enviar para si e para a Luarte as fotos que temos do vosso filho”.

Eu fiquei logo com o coração a bater a mil.

Ouvi o som da notificação no smartphone e acho que o meu coração ia saltando da boca. Não podia abrir ali. Tinha de aguardar até ter um intervalinho para ver sozinha o meu filho.
Entretanto, toca o telemóvel e é o P.

- Já mandaram as fotos. Já viste?
- Não! Mas já sei que as tenho no e-mail. E então? (toda eu sou uma fogueira em combustão)
- Tem ar de esperto e de reguila. É bonito (sinto-o mesmo feliz e a sorrir).

Mais uns minutos que parecem uma eternidade. Finalmente consigo ir ao w.c. e toda a tremer abro o email. Abro as fotos. Dou um suspiro profundo e longo. Tão longo. O meu coração serena e os meus olhos ficam cheios de água. Aguento-me. És doce. Tens olhos grandes. És lindo. És meu.

Volto para dentro. Não tenho cabeça para trabalhar. Tu ganhaste um rosto. O meu filho já tem rosto.

No intervalo do almoço, já dentro do carro, descomprimo. Choro. Soluço. Ligo ao P. Estou tão feliz. Estamos tão felizes e tão expectantes. Digo-lhe que o acho parecido com o pai, ao que o pai me responde: "A sério? É que eu também acho que ele é parecido comigo, mas eu sou suspeito".

Nesse dia eu vi-te vezes sem conta. Fechava e abria as fotos. Foram tantas, mas tantas as vezes. Sempre com os olhos cheios de água, de palavras guardadas de um sentimento calado. Tu existias. Tu tinhas um rosto. Tu. Meu Amor.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Prometidos

Naquela sexta-feira à tarde, enquanto passeava a Cereja, o telemóvel tocou. E quando tocou o pressentimento não falhou. Eu sabia, eu já tinha dito ao P. que este ano tu vinhas passar o Natal a casa. Não falhei. Aquele número há tanto tempo guardado nos contactos trouxe a notícia. Tu já existias. 

- Olá, Luarte! Estou-lhe a ligar porque temos aqui uma proposta para si e para o P. Trata-se de um menino de 4 anos e está institucionalizado em XXXXXX. Fará 5 anos em YYYYYYY.
- A SÉRIO?????????
- Sim! Como se sente?
- Nem sei… Eu sabia que um dia o telefone ia tocar, mas é sempre uma surpresa. Estou em choque!

Eu estava tão nervosa ao telefone. Ai vida! Ai universo! Ai meu Deus! Tinham-se-me rebentado as águas no coração.

De seguida, com as mãos a tremer, com o coração a bater forte e descompassado, liguei para o P. a contar-lhe a boa nova.

- E sabes o nome?
- Não! Não disseram. Ficou agendada reunião para terça-feira. Aí conheceremos o processo.

Nessa noite tudo quanto eu e o P. falámos girou sobre ti. Tu existias. Quando em agosto de 2012 arrancámos com o projeto da adoção tu já vivias numa barriga, mas o teu coração já batia dentro do nosso. Estávamos tão grávidos de ti.

Na manhã seguinte, levantei-me mais cedo, como é hábito. O P. ficou na cama, como também é hábito. Arrumei umas coisas, dei uma vista de olhos no feed de notícias no Facebook e pelas 10 e picos fui para a cozinha preparar o pequeno-almoço. Entretanto o P. que já tinha acordado entra em pijama e conta-me:

- Esta noite sonhei com ele. Não tinha rosto, mas tinha nome…

Disse-me o nome. Não era um nome vulgar. Sorrimos porque a nossa cabeça agora não parava de pensar nas mesmas coisas. Tu eras o nosso epicentro. Terça-feira nunca mais chegava. Nós não sabias nada sobre ti. 

No dia da reunião com a equipa da S.S., a assistente social pousa sobre a mesa uma pasta grossa. Era o teu processo. E dizem-nos o teu nome. Nesse momento um arrepio atravessou-me a espinha e olho de imediato para o P. A reação dele foi a mesma. Olhámos um para o outro sem pestanejar e boquiabertos.

- Há algum problema? – perguntam-nos no mesmo instante e em resultado da nossa reação.

Nenhum. Não havia nenhum problema.

Naquele sábado, ele podia ter acordado e não me ter contado nada do que tinha sonhado. Não teria testemunha de defesa. Mas “calhou” a que contasse. E ele que nem cético é, ele que não acredita cá em sextos sentidos, em experiências esotéricas, ele que é ateu, sonhou com o nome do filho. Sim ele tinha o mesmo nome.

Naquela sala estavamos os 4 arrepiados. Eu, o P. e as duas técnicas.

Imagem relacionada
(imagem retirada da internet)

O P. podia ter sonhado com um Pedro, um João, um Miguel…, ou um outro qualquer nome dentro das tendências da moda.

Teria muito mais hipóteses de acertar. Mas não. Não sonhou. Sonhou com o teu. 

Naquele momento tivemos a informação que também era a primeira vez que lhes passava pelas mãos o processo de um menino com aquele nome. 

Dias mais tarde, novo telefonema da psicóloga:

- Luarte, estou-lhe a ligar porque tive aqui um feedback do seu filho que acho que gostaria de saber. A psicóloga que está a prepará-lo para a transição e para receber novos pais contou isto. Ela pediu-lhe que ele desenhasse a família. Como é que ele imaginava a família dele. E ele desenhou um pai, uma mãe, um cão e um primo pequeno.

Cristalizei. Pai e mãe seria o normal em termos de representatividade de modelos. Cão, um desejo que muitas crianças têm. Mas primo pequeno? O mais normal seria desenhar um irmão, não? Efetivamente o único primo direto que ele tem é o meu sobrinho, filho da minha irmã e que é pequenino e com quem temos uma relação muito próxima.


Naquela sexta-feira treze partiste connosco para viveres connosco. Tu, não eras o nosso azar. Eras a nossa sorte grande. Naquele dia tu disseste sem hesitar que querias ir para casa. Naquele dia 13, dia da última aparição de Fátima. 

Não tenho quaisquer dúvidas que estavamos prometidos. Que tu eras a nossa promessa e nós a tua. Que a vida junta vidas e que as nossas tinham necessariamente de se cruzar. Não tenho dúvidas que o Universo conspirou para que nos encontrassemos. Diariamente nos dá sinais, nos dá provas disso, desse amor que nos une.

Não troco por nada todos os caminhos que já percorri, todas as pedras em que tropecei, todos os muros em que esbarrei. Não troco por nada todas as horas, dias e anos que esperei. Eu sabia que tu existias. Eu sabia que haveria de ser tua mãe.

E a ti não te troco por nada, nem por ninguém, nem coisa alguma porque tu encerras em ti a história mais linda que alguma vez eu vivi.

Obrigada.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Adoção e o preconceito positivo #2

Considerações sobre eu ter bom coração e ser mesmo boa pessoa...

Comentários que ouço aqui e ali porque adotei uma criança.

Não, eu não sou a Madre Teresa de Calcutá. 

Sem falsas modéstias, também acho que sou boa pessoa e tenho um bom coração. Mas isso tem a ver com aquilo que sou, não tem a ver com a decisão de ter adotado uma criança. Eu não fiquei ou sou melhor pessoa por causa disso.

Claro que a adoção é e tem de ser um ato de amor. Nem pode ser de outra maneira.

Mas é um processo primariamente egoísta. As motivações que me levaram ao caminho da adoção foram egoístas. Como são egoístas as motivações que levam outros a decidirem ter filhos por via biológica. Assim como essas pessoas, eu tinha o desejo de ser mãe, o desejo de ter e amar um filho, de o criar, educar, de constituir família.

(imagem retirada da internet)

Mas há quem argumente que é diferente porque implica passar-se a amar uma criança que não é nossa, que é um "estranho". Mas se pensarmos bem, todo o filho não é um estranho antes de o ser, venha ele por via biológica ou por adoção? Em ambos os casos criam-se expetativas, uma ligação emocional, amorosa antes dele existir. E quando passa a existir é um estranho que temos ali num primeiro momento.

Mas também há quem tenha filhos biológicos e adote. Desculpem-me, mas até nesses casos, as motivações iniciais são egoístas.

Se as minhas motivações fossem genuinamente altruístas, no sentido de querer "fazer o bem", ajudando uma criança que por força de um destino madrasto teve de passar a viver num lar, numa instituição, eu não escolheria a adoção. Não, eu escolheria ser família de acolhimento, sem a intenção de querer tirar daí outras contrapartidas além daquelas que estão previstas na lei. 

Se existissem mais famílias de acolhimento, muitas das crianças que não podem viver com os pais biológicos não estariam a viver em lares e centros de acolhimento, lugares que por melhor que sejam, não substituem o conforto de um casa, de uma família, uma relação de exclusividade, de afeto, proteção e segurança com o adulto que se propõe a fazer aquilo que é suposto um pai e uma mãe fazerem.

Se a minha intenção fosse "fazer o bem", era esse o caminho. Mas, infelizmente, e por agora não tenho essa capacidade abnegada e benemérita de cuidar de uma criança com a qual não tenha anteriormente quaisquer laços, substituindo os seus pais, até estarem reunidas as condições para a essa criança voltar. 

Quem sabe um dia eu tenha essa capacidade de ser muito "melhor pessoa" do que aquela que sou hoje.

O tempo de espera para Adotar

A propósito de um comentário de uma leitora do blog que me escreveu o seguinte: "De cada vez que vejo uma noticia de uma criança maltratada pela própria familia penso que quero adotar. Porque é que é tão mais difícil para quem tem tanto amor para dar?". 

(imagem retirada da internet)

Sei que há muita gente que partilha da mesma opinião sobre a dificuldade em adotar.

A maior parte das pessoas não entende o porquê do tempo de espera para adotar uma criança ser tão longo. Porque se esperam anos e anos? Que é inconcebível quando há tanta criança institucionalizada e a precisar de um lar.

Vamos lá tentar desmistificar isto. O tempo de espera depende muito do perfil escolhido e há muitas crianças institucionalizadas mas que não podem ser adotadas.

Mas vamos por partes.

Só para terem uma ideia em Portugal, em média, existem cerca de 11.000 crianças institucionalizadas. Deste universo apenas uma pequena percentagem pode ser adotada. Enquanto existirem ligações com a família biológica, o tribunal não pode decretar a adoção da criança. Não se retiram definitivamente crianças aos progenitores assim sem mais nem menos ou por dá cá aquela palha. É necessário chegar a um acordo com a família ou então esta desligar-se completamente da criança, deixar de ter interesse nela. E é por isso que há muita criança institucionalizada, mas poucas para adoção. 

Só para terem uma ideia, neste universo de crianças institucionalizadas apenas uma pequena parcela, cerca de 700, pode ser adotada por ordem do tribunal. E existem cerca de 2.000 candidatos em lista de espera. Ou seja, há muito mais candidatos do que crianças disponíveis. E destas 700, quase metade delas não vêm a ser adotadas. Nem todas encontram pais. 

As crianças que esperam mais tempo são as mais velhas, as que têm necessidades especiais ou têm irmãos (a maior parte dos candidatos quer um filho de cada vez), são de raça ou etnia diferentes dos candidatos.

E a procura de pais faz-se em função da criança. As equipas tentam encontrar, emparelhar o melhor perfil de pais para aquela criança. É a criança que procura os melhores pais e não os pais que procuram a "melhor" criança.

E aqui chegamos ao perfil da criança.

Dentro deste universo de candidatos a maior parte pede crianças até os 3 anos, caucasianas (raça branca) e sem problemas de saúde. Preferencialmente bebés. Porque o sonho de muitos é ter um filho pequenino, ainda bebé. 

Cria-se a ideia que é mais fácil criar laços, ama-se mais facilmente uma criança se ela for pequenina. Sendo pequenina também terá uma história de vida triste mais pequena para contar e para se lembrar. E com estas preferências sim o tempo pode ser longo e em média rondar os 6 / 7 anos.

Por outro lado, existem muito menos candidatos interessados em crianças a partir dos 7 anos. E sei que para quem opta por crianças a partir desta idade o processo pode ser relativamente rápido. 

E sim, as crianças no geral aceitam e acolhem a ideia de adoção com muita alegria porque estão desejosas de ter pais, desejosas de ter uma família, desejosas de ter a atenção do adulto. Não, elas não querem ser diferentes dos amigos da escola que têm pais. Muitas delas escondem por vergonha que vivem numa instituição.

Obviamente que a adoção é um processo muito pessoal, em que cada candidato deve ser o mais sincero possível não com os outros mas consigo próprio. Naquilo que pretende, naquilo que é capaz de suportar ou de saber lidar. E nesse sentido é muito importante que não ultrapassemos os nossos limites, só para encurtarmos tempos. 

É muito importante sentirmo-nos confortáveis com as escolhas que fazemos para depois não sofrermos deceções, não gorarmos expetativas, não vivermos frustrações. Porque depois não há volta a dar. É mesmo para a vida toda. 

Agora também é importante não idealizarmos filhos perfeitos, porque nem os filhos que vêm por via biológica o são.